domingo, 9 de março de 2008

Estado de sítio, A senhora ministra

Correio da manhã – 03 de Março de 2008

Estado de sítio, A senhora ministra
António Ribeiro Ferreira

Os professores vão para a rua porque a vergonha há muito deu lugar à pouca vergonha neste sítio chamado Portugal.O sítio vai ter uma semana agitada com os professores a preparar uma manifestação contra a política de Educação do Governo e naturalmente contra a ministra da pasta. Importa conhecer as razões que levam os professores para a rua. Os professores vão para a rua porque uma senhora com um saudável mau feitio, de seu nome Maria de Lurdes Rodrigues, acabou com o Ministério dos Professores e tenta, há três anos, criar o Ministério da Educação.

Os professores vão para a rua porque a ministra acabou com a pouca vergonha dos furos nos horários dos alunos, horários esses feitos à medida dos gostos e interesses dos professores, e criou as aulas de substituição, situação que obriga as senhoras e os senhores a passar mais tempo nas escolas. Os professores vão para a rua porque Maria de Lurdes Rodrigues fez aprovar um novo Estatuto da Carreira Docente que acabou com os privilégios e regalias, muitas delas obscenas, do anterior estatuto tão do agrado dos sindicatos.

Os professores vão para a rua porque o novo Ministério da Educação, ainda em formação neste sítio cada vez mais mal frequentado, decidiu avançar para a avaliação dos senhores e senhoras que são pagos para ensinar a ler e a escrever as crianças do sítio. Os professores vão para a rua porque a ministra decidiu enviar para as escolas centenas de sindicalistas que não punham lá os pés há muitos anos.

Os professores não vão para a rua protestar contra o insucesso escolar. Os professores não vão para a rua indignar-se com o abandono escolar.

Os professores não vão para a rua gritar contra as notas miseráveis em Português e Matemática. Os professores não vão para a rua exigir um ensino de qualidade que acabe com os vergonhosos conhecimentos dos alunos nas disciplinas da área de ciência. Os professores não vão para a rua, vestidos de negro, lamentar o analfabetismo e a iliteracia das crianças e adolescentes. Os professores não vão para a rua protestar contra estes miseráveis trinta anos de ensino que colocaram Portugal numa situação inqualificável na União Europeia. Não.

Os professores vão para a rua defender a incompetência e o laxismo. Os professores vão para a rua porque a política do Governo colocou os interesses de pais e alunos acima dos seus privilégios. Os professores vão para a rua porque o seu Ministério da 5 de Outubro está a ser substituído por um Ministério da Educação. Os professores vão para a rua, apoiados pelo PCP, PSD e parte do PS, porque têm medo de ser avaliados. Os professores vão para a rua porque a vergonha há muito deu lugar à pouca vergonha neste sítio chamado Portugal.

Sócrates e as crianças

Diário de Notícias - 28 Fev 08

Sócrates e as crianças

Pedro Lomba

José Sócrates disse ontem, a fechar as jornadas parlamentares do PS, que as reformas da educação são para continuar "a pensar nas crianças". Mais uma vez Sócrates vem em socorro de um ministro em apuros, no caso a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Mas, além do termo demagógico e estudado ("crianças" em vez de estudantes ou alunos), o que disse Sócrates, a sua promessa de que o Governo irá continuar a agir "a pensar nas crianças", serve para perceber duas coisas: em primeiro lugar, o modo como ele encara o conflito aberto e ainda não sanado entre a Ministra e os professores por causa do novo regime de avaliação. Segundo, o que o primeiro-ministro pensa do papel do Governo na reforma do ensino. A ideia de Sócrates, com algum simplismo, é a de que os protestos dos sindicatos e professores contra o sistema de avaliação e as regras de gestão das escolas prejudicam as "crianças", para as quais as escolas existem e que os professores deviam fielmente servir. Não é por discordância (uma discordância política) contra a oportunidade e a racionalidade dessas medidas que os professores reagem. Sócrates não lhes reconhece legitimidade para tanto. Não se interessa sequer em rebater um a um os argumentos dos professores, limitando-se a gabar que o Governo tenha sido o primeiro a introduzir a avaliação dos professores nas escolas e acusando assim implicitamente os professores de não quererem essa avaliação.

Não, o que diz Sócrates é que a oposição dos professores às medidas do Governo assenta num conflito de interesses. É assim que Sócrates vê o mundo do ensino: os professores contra as "crianças". Os privilégios dos professores contra os interesses das "crianças". O próprio método de avaliação que o Governo defende para os professores faz depender a apreciação do mérito dos professores do êxito das "crianças". Evidentemente que assim não há escolha possível. Os professores defendem-se a si próprios e ao seu estatuto de "irresponsabilidade", e o Governo defende "as crianças". É verdade que, depois disto, Sócrates e a Ministra da Educação deixam de contar com os professores. Estranhamente, trouxeram para a reforma da educação o mesmo quadro mental que têm aplicado na Administração Pública ou no Estado: a função do Governo consiste, num conflito entre agentes do "sistema" que o próprio alimenta, em enfraquecer e isolar os interesses ilegítimos. Esquecem-se que não se pode pôr os professores contra os alunos e vice-versa, tal como se confrontam os funcionários de um serviço do Estado com outros funcionários. O ensino exige que os professores mantenham uma autoridade e legitimidade institucional independente dos alunos. Muito diferente do que quer este Governo.

Estudar para o desemprego

Expresso
Estudar para o desemprego
Vasco Pulido Valente

Desde que o regime começou a funcionar regularmente, não houve Governo, não houve ministro, não houve político que não viesse proclamar que o futuro de Portugal e dos portugueses estava na educação. A educação era sempre uma "prioridade". Depois foi a "prioridade das prioridades", para acabar, na falta de mais superlativos, na "paixão" de António Guterres, declarada e redeclarada com a enjoativa pieguice da criatura. Muita gente avisou que tudo isto não passava de uma ideia perigosa e falsa. Ninguém ouviu. Pior ainda, milhares de pessoas levaram inteiramente a sério a demagogia oficial. Pais que sofreram e pouparam para educar os filhos. Filhos que esforçadamente tiraram um curso. E agora? Agora, de acordo com o INE, Portugal tem 60.000 licenciados no desemprego.

Como se chegou aqui? Por que razão esta aberração durou o que durou, perante a passividade e o consentimento das vítimas? Primeiro, porque ao princípio (na fase da "quantidade", como lhe chamou Cavaco) a "educação" criou emprego e disfarçou (e continua a disfarçar) o desemprego. Criou emprego para professores (frequentemente de uma total incompetência) e disfarçou o desemprego metendo na universidade centenas de milhares de jovens, que de outra maneira entrariam no mercado de trabalho. Segundo, porque a "educação", em particular do género "superior", serviu durante anos para a "iniciativa privada" (sem espécie de fiscalização do Estado) montar uma vigarice imperdoável e cruel, que explorou até ao tutano a esperança de ascensão social dos portugueses.

Dos 60.000 licenciados no desemprego (um escândalo difícil de esconder) nasceu recentemente uma tese peregrina: a tese da "empregabilidade" dos cursos, que sustenta a existência de cursos com ou sem "saídas profissionais". Mariano Gago prometeu mesmo publicar uma lista com essa absurda discriminação. No fundo, e tirando os casos de uma enormidade notória, os responsáveis pela catástrofe querem transferir a culpa do desemprego para os desempregados: não escolheram bem, portanto não se queixem. Só que as sobreditas "saídas profissionais" não dependem essencialmente do curso, dependem da habilitação e da capacidade. O ensino indígena (como, de resto, o próprio país) despreza por princípio a capacidade e "habilita" para pouco ou para coisa nenhuma. É esse o ponto e essa a tragédia.

Parabéns. E pêsames

Público - 10 Fev 08

Parabéns. E pêsames

António Barreto Retrato da semana

As escolas sem autonomia ou com autonomia aparente transformam-se em repartições dominadas pela burocracia

O Ministério da Educação tomou uma boa decisão: a de alterar o regime de gestão das escolas. O decreto, aprovado em primeira leitura pelo Governo, foi submetido a debate público até ontem. Saberemos em breve quais os resultados e as lições que o ministério retira.

Tanto quanto se percebeu pelas notícias, há opiniões contrárias, designadamente de professores. Alguns (ou muitos) não vêem com bons olhos a direcção unipessoal da escola (um professor seria o director, com poderes próprios), nem a designação de um presidente não docente do novo conselho geral. Esta discussão está a agitar o universo escolar, o que é natural. O clima está de nervos, até porque há outras questões em discussão, especialmente a da avaliação dos docentes, que parece ter sido deficientemente preparada.

Nesta tentativa de reforma há aspectos centrais que merecem atenção. A vontade de estabelecer os poderes de um director, com mandato de três anos, duas vezes renovável. A intenção de entregar às comunidades locais novas competências e mais responsabilidades. O objectivo de alargar a autonomia de gestão das escolas. E a criação do conselho geral da escola, com a participação de pais e autarcas, é uma boa indicação que poderia enriquecer o sistema educativo. Mau grado muitos defeitos e apesar de a lei ser demasiadamente regulamentar, estas intenções são de aplaudir. Nas escolas, como em qualquer instituição, a autoridade difusa, camuflada de colegial, tem dado maus resultados. O afastamento das comunidades e das autarquias, relativamente às suas escolas, tem tido, há décadas, consequências nefastas, nomeadamente a do desinteresse dos pais pelo destino das escolas dos seus filhos. Existe já alguma evidência de que os pais se interessam mais pelas escolas privadas do que pelas públicas, onde são, em geral, mal recebidos. Finalmente, as escolas sem autonomia ou com autonomia aparente, como é hoje o caso, transformam-se em repartições dominadas pela burocracia do ministério obcecada com a regulamentação e a uniformização. Aplausos, pois!

Há todavia dúvidas sobre o alcance desta lei. Na verdade, o ministério fica a meio caminho. E, quando assim é, as reformas são, no melhor dos casos, toscas e os resultados débeis. Na verdade, meias reformas, meias ideias e meios objectivos, acabam por "morrer na praia". A autonomia e a entrega às comunidades, tal como aqui previstas, são insuficientes, pois o ministério quer manter controlos e não vai tão longe quanto seria necessário e possível. Mais ainda: como a reforma é híbrida na sua concepção, será equívoca, terá um máximo de defeitos e de inconsistências. Quem não sabe exactamente o que quer, quem não tem coragem para desenhar um modelo simples e claro e quem quer conciliar o incompatível deveria abster-se de reformar o que quer que seja, pois o resultado pode ser pior do que a situação anterior. Com todas as precauções do mundo, provocam-se as iras de todos, dos professores, dos pais e dos autarcas, sem nunca chegar a obter as vantagens de uma nova solução com potencialidades.

Há vinte anos, ou mais, que se dão pequenos passos na direcção da autonomia e da "devolução às comunidades" das escolas. Há décadas que se tenta envolver os pais na gestão das escolas, com ineficientes dispositivos que quase nunca resultaram. Há muito tempo também que os ministros, muitos deles pelo menos, se queixam de centralismo excessivo e confessam, geralmente em privado, que gostariam de entregar as escolas básicas e secundárias às autarquias, mas "não podem". As desculpas para estas fraquezas são numerosas, expressas muitas vezes pelos próprios. As autarquias não querem mais responsabilidades. Os pais não se interessam. Os professores são contra. A tradição portuguesa não é essa. E muitas outras, entre as quais avulta uma de excepcional importância. Dizem os delatores da entrega às comunidades que estas, sob domínio dos professores ou dos autarcas, fariam, conforme a região, escolas revolucionárias no Alentejo ou reaccionárias no Minho. É uma estranha convergência, de Salazar à democracia, passando por todas as formas de jacobinismo.

Não é possível administrar uma organização com dois milhões de alunos, quatro milhões de pais, duzentos mil professores e dezenas de milhares de funcionários. Na educação, tal como, aliás, na saúde, não se pode pretender gerir universos com estas dimensões humanas, políticas e financeiras. Nem as grandes empresas o fazem e adoptam sofisticados sistemas de descentralização. Os ministros, em vez de elaborar reais políticas, definir objectivos, prever o médio e o longo prazo e desenhar modelos, transformam-se em directores-gerais executivos a correr numa lufa-lufa atrás dos problemas e a inventar falsas soluções. Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues são dois excelentes exemplos de governantes com ideias e coragem, mas que se perdem na administração casuística, na quezília, na abertura de uma escola ou no fecho de uma urgência. Mesmo que fosse possível gerir centralmente tão enormes organizações, os resultados não seriam brilhantes. As escolas pertencem, por definição, às comunidades. Perante a escola de massas, cada vez mais se percebe esta relação essencial.

A entrega das escolas às autarquias, com responsabilidade e competências, teria ainda a formidável consequência de retirar a maior parte do trabalho ao ministério, reservando-lhe as suas funções nobres, que cada vez exerce menos: inspeccionar, avaliar, prever, assegurar os direitos fundamentais e cuidar da coerência nacional. Já se pensou no que poderia ser um ministério da educação sem nomeação de professores, sem definição de horários, sem autoridade sobre os técnicos de apoio, sem concursos de aquisição de bens, sem capacidade para aprovar, dia sim dia sim, regulamentos pedagógicos e normas de execução? Já se imaginou na utilidade de um ministério que se dedicasse a pensar, a apoiar e a inspeccionar, em vez de administrar, recrutar, fazer obras e ditar regras de comportamento? Após tantas décadas de miséria educativa e de caos escolar, com os péssimos resultados que se conhecem, merecíamos melhor. Nós todos e também os professores, os alunos e os pais.

Sociólogo

O tempo do mundo às avessas

Diário de Notícias - 04 Fev 08


O tempo do mundo às avessas
João César das Neves


Dona Fernanda, então por aqui? Agora me lembro, ainda não lhe dei os parabéns pelo seu homem. Vi-o no concurso da televisão. Que honra! Muitos parabéns! Fiquei orgulhosa como se fosse meu!

- É verdade, dona Cátia. Estamos muito contentes. Foi muito bom, até para compensar a desgraça da minha irmã. Não sabe? Imagine que o marido dela é administrador de um banco.

- Não me diga! Que vergonha! Mas qual? Daquele criminoso, o BCP?

- Olhe nem sei bem. Mas aquilo é tudo a mesma gente. Coitada da minha irmã, anda muito ralada! Felizmente que o amante está muito bem. Era segurança num bar, mas agora conseguiu ficar dado como deficiente por causa de uma sova que levou e o subsídio é excelente.

- Ainda bem! Que sorte! Olhe, essa sorte não tenho eu. Ando muito preocupada com o meu sobrinho. Não, não é com o homossexual. Não, esse está óptimo. Foi ao estrangeiro casar com o amigo e agora até estão a pensar adoptar uma criança por lá. O que me preocupa é o outro, o Zé. Tem um restaurante, imagine. Um restaurante de luxo.

- Ai, coitado! Em que se havia de meter! E tem tido muitas queixas?

- Pois. Calcule que nem sequer usava sabão líquido nas casas de banho e os exaustores são de baixa extracção. Estou com medo que mais cedo ou mais tarde acabe na cadeia, pobrezinho!

- Compreendo, compreendo. As ralações que temos! E então o que é que a traz por cá? Eu vou agora ali à direcção da escola queixar-me. Veja lá que a minha filha me disse que lá na escola não há máquinas de distribuição de preservativos na casa de banho das raparigas. Só na dos rapazes. Não é uma vergonha?

- Um escândalo. Depois se há problemas a culpa é dos pequenos! Eu também tenho de lá ir mas, infelizmente, é derivado ao comportamento do meu Ronaldinho.

- Não me diga que ainda é por causa da gravidez?

- Não, que ideia. Isso está tudo resolvido. Eles os dois trataram a questão com muito bom senso. Nem pareciam ter 13 anos! O aborto correu muito bem e o meu rapaz até já arranjou outra namorada bastante mais velha. Não, o que me preocupa é aquele grupo com que ele anda.

- Qual? A banda de rock satânico? Oh, minha amiga não se apoquente com isso. Nós lá em casa até dissemos ao nosso rapaz para criar uma. Antes isso que andar pelos ATL da paróquia com aqueles beatos a meter patranhas na cabeças dos miúdos. Na banda é muito mais seguro e saudável. Não só é artístico, como abre horizontes e um dia, quem sabe... Olhe, não me preocuparia nada com isso.

- Não, não é isso. Nós também estamos muito satisfeitos por ele andar com a banda. É um excelente meio de educação. Ao princípio ainda me chocavam um bocado as letras das canções, a falar de suicídio e sangue, mas agora até acho graça. Rapazes são rapazes, não é? Não, é muito pior. Ele também anda metido em coisas mesmo graves com aquele outro grupo clandestino. Já ouviu falar, não? Aquele grupo de fumadores que no outro dia até apareceu no jornal por um deles fumar dentro do metro.

- Que horror! O seu filho fuma? Mas isso faz imenso mal à saúde e polui o ambiente. Então ele não pensa no aquecimento global? Esta juventude está perdida!

- Eu sei, eu sei! Tentámos tudo para o afastar do vício, mas nada. O meu marido até quis ver se o interessava em blogs pornográficos, chats neonazis e outras coisas que fossem também um bocadinho subversivas e clandestinas mas não fizessem tanto mal. Mas nada! Ele não larga o cigarro! A culpa é do meu homem e eu já lhe disse. Imagine que quando o miúdo era pequeno lhe dava pistolas e outros brinquedos de violência. Claro que tinha de ter esta consequência, não era?

- Que horror! Imagino como anda apoquentada. E nos estudos, que tal anda ele? Os meus antigamente era um castigo. Davam muitos erros de ortografia mas isso agora, com este novo programa para o insucesso escolar, deixou de criar problemas porque já não conta. E, mesmo na Matemática, o que interessa é a criatividade dos miúdos. Se os professores explicam mal que culpa têm os pequenos?

- Eu digo o mesmo. Se eles depois acabam todos no desemprego, ao menos gozem a juventude.

A miopia do poder central

Público - 01 Fev 08

A miopia do poder central
Graça Franco


Vale a pena a passar os olhos pelas listagens do INE para nos darmos conta de que não vivemos num país, mas em váriosAzar mesmo é nascer em Castelo Branco ou para os lados de Idanha-a-Nova, na Beira Interior, onde em pleno século XXI a esperança média de vida à nascença da gente que por lá reside se fica nos 68 anos e meio. Dez anos menos (leu bem, dez!) do que a média calculada para Portugal. As médias são assim. Matreiras. Misturam a fome de uns com a gula dos outros e garantem-nos que não vale a pena preocuparmo-nos porque andamos todos bem alimentados.

A esperança média de vida à nascença em Portugal não é excepção. Era, segundo os anuários estatísticos regionais do INE, para 2006 (divulgados há poucas semanas), de 78 anos e meio, o que é compatível com a presença do país entre os primeiros 30 lugares no ranking de Desenvolvimento Humano da ONU, onde o índice é visto como bom indicador dos cuidados de saúde.

Vieira da Silva tem razão: vivemos cada vez mais e é justo que trabalhemos em conformidade ou descontemos reforçado para pagar os quase 15 anos de descanso esperado.

Mas vale a pena perder algum tempo a passar os olhos pelas listagens do INE para nos darmos conta de que não vivemos num país, mas em vários.

Os mapas são claros: mostram um pequeno Portugal "europeu", litoralizado, e uma enorme faixa de um outro qualquer país que envelhece esquecido e atrasado e que vive mal e ganha pior.

O país desdentado que insiste em mostrar-se em protestos contra a justeza das políticas da elite central. Cheio de desmancha-prazeres que, certamente a mando da cacicagem local, insistem em mostrar uma realidade que desmente a bondade dos estudos centrais.

As diferenças regionais para quase tudo são assustadoras. Mas centremo-nos nesta, porque simbólica. Na região da Grande Lisboa, onde se concentram mais de dois milhões de residentes, a esperança média de vida à nascença sobe para quase 80 anos, o que significa mais um ano e quatro meses do que a média geral. Em Lisboa tem-se a falsa ilusão de se viver na Europa. O pior é o resto, e o resto é cada vez mais paisagem.

Na esperança de vida, o resultado nem será dos piores. A média é superada por exemplo no Alentejo Central e até os valores de Lisboa são superados por regiões como Entre Douro e Vouga (onde apenas residem 286 mil pessoas). Acima da média encontram-se o Ave, o Tâmega ou mesmo o Baixo Vouga (onde se situa Anadia, que, quem sabe por isso, não está disposta a abdicar do sistema de saúde actual).

Mas o quadro torna-se negro quando olhamos a Cova da Beira e vemos que a esperança de vida à nascença ainda se fica ali pelos 70 anos. Na serra da Estrela já não passa os 68,6 e na Beira Interior cai para 68 e meio.

Um valor igual à esperança média de vida em Cabo Verde ou da Turquia, países de "desenvolvimento humano dito médio". Como se explica isto? Não sei. Sei apenas que quando o senhor ministro da Segurança Social nos decreta que temos de trabalhar mais ou descontar mais, porque não pára de crescer a nossa "esperança de vida", devia em justiça exceptuar aquelas gentes. Afinal, a expectativa para os que lá nascem é de se finarem escassos três anos depois de abandonarem o trabalho. Se optarem por prolongar a vida activa, para não verem reduzida a reforma, não chegarão sequer a ver a dita. Media dixit.

Isto quando, como no caso da Beira Interior, já em plena vida activa recebia em média menos duzentos euros de salário (uns parcos 723 euros contra 907 de média geral).

É que as disparidades passam por tudo. O salário médio dos trabalhadores por conta de outrem é só outro exemplo. Mondim de Basto (no Tâmega) exibe o valor mais baixo: 527 euros. Sabem o que isso significa? Que a média em Mondim de Basto se fica a 58 por cento do geral, a rondar uma espécie de linha da "pobreza relativa entre assalariados".

Os dados são de 2005, mas lembram-se do prometido apoio para os idosos mais pobres que Sócrates anunciou subir agora para 400 euros para não os deixar abaixo da linha de pobreza? Pois é.

Mas há pior. A diferença salarial é enorme para todos os níveis de formação, ou seja, nem uma licenciatura é garantia de sair desta enorme pobreza relativa.

Em Portugal, o ganho médio mensal de um trabalhador por conta de outrem era, no mesmo ano, de 907 euros. Contudo, a remuneração variava substancialmente com a qualificação média. Os trabalhadores com apenas o primeiro ciclo do ensino básico ficavam-se por uma média de 578 euros mensais (apenas 64 por cento da remuneração média global), enquanto os licenciados conseguiam um salário médio pouco abaixo dos dois mil euros, ou seja, mais do dobro da média global. É o efeito de info-exclusão.

Mas em Mondim de Basto, onde residem menos de 9 mil almas, o ganho médio mensal dos trabalhadores não só ficava pouco acima dos 500 euros como, aí, mesmo um trabalhador por conta de outrem, licenciado, ganhava em média apenas 886 euros por mês, o que significa apenas mais 91 euros do que o salário médio nacional de um assalariado com apenas o nono ano de escolaridade.

Ou seja, nem uma licenciatura em Mondim de Bastos chega para sair da pobreza. Os poucos que são licenciados chegam a ganhar menos, em média, do que os bacharéis da zona, o que também nos diz algo sobre a qualificação "média" do trabalho por lá.

Em Sines passa-se o mesmo, mas a explicação é outra. Quer bacharéis, quer licenciados, ganham bastante acima da média nacional. Os bacharéis têm um salário 73 por cento superior à média para os trabalhadores com as mesmas habilitações, enquanto o salário dos licenciados de Sines fica 16 por cento acima da respectiva média nacional. Eis a prova do valor relativo de certas qualificações "intermédias" nalguns mercados.

Mas, adiante, porque quase tão mal pagos quanto os assalariados de Mondim de Basto estão os trabalhadores de Barrancos, no Baixo Alentejo, seja qual for a sua qualificação. E se mais contas se fizessem mais exemplos haveria.

Pergunto-me se no Terreiro do Paço e na 5 de Outubro se trabalham estes números. Portugal tem apenas 1,6 milhões de crianças com menos de 14 anos. Mas em nove municípios da Grande Lisboa estão concentradas 315 mil (Lisboa tem só por si 68 mil).

Na península de Setúbal estão 122 mil e só no Seixal 28 mil. Mais do que nos quinze municípios do Alto Alentejo (onde, tudo somado, há só 15 mil crianças). Ou do Pinhal Interior Norte, com menos de 20 mil crianças para 14 municípios. Para nem falar da Beira Interior Norte com as suas 14 mil crianças ou da Beira Interior Sul com menos de 9 mil. Num país assim, para que nos servem as "médias" senão para nos chamar a atenção para as diferenças?

Só em Cascais há mais crianças do que em quase duas dezenas de municípios que constituem toda a região do Douro.

Deve estar aqui a explicação para aqueles rácios fantásticos da relação professor/aluno. Para aquelas "médias" notáveis que a ministra exibe e se dedica a melhorar. E que nunca batem certo com a realidade das escolas que conhecemos com turmas sobrelotadas, a abarrotar, e onde os professores não dispõem de espaço nem sequer para os cabides onde deixar os casacos...
E é neste país de contrastes onde a maioria bem-pensante jura que não nos faz falta nenhuma a regionalização.
Jornalista

quarta-feira, 5 de março de 2008

MAUS EXEMPLOS