terça-feira, 3 de março de 2009

Atendedor de mensagens de uma escola ... americana

Atendedor de mensagens de uma escola ... americana

Esta é a mensagem que o pessoal docente da Escola Secundária de Pacific Palisades (Califórnia) aprovou unanimemente que deveria ser gravada no atendedor de chamadas da escola.

Foi o resultado de a escola ter implementado medidas que exigiam aos alunos e aos pais que fossem responsáveis pelas faltas dos estudantes e pelas faltas de trabalho de casa.

A escola e os professores estão a ser processados por pais que querem que as notas que levam ao chumbo dos seus filhos sejam alteradas para notas que os passem - ainda que esses miúdos tenham faltado 15 a 30 vezes num semestre e não tenho realizado trabalhos escolares suficientes para poderem ter positiva.


AQUI VAI A MENSAGEM GRAVADA:

Olá! Foi direccionado para o atendedor automático da escola. De forma a podermos ajudá-lo a falar com a pessoa certa, por favor ouça todas as opções antes de fazer a sua selecção:

- Para mentir sobre a justificação das faltas do seu filho, pressione a tecla 1

- Para inventar uma desculpa sobre porque é que o seu filho não fez o seu trabalho, tecla 2

- Para se queixar sobre o que nós fazemos, tecla 3

- Para insultar os professores, tecla 4

- Para saber por que razão não recebeu determinada informação que já estava referida no boletim informativo ou em diversos documentos que lhe enviámos,tecla 5

- Se quiser que lhe criemos a sua criança, tecla 6

- Se quiser agarrar, tocar, esbofetear ou agredir alguém, tecla 7

- Para pedir um professor novo, pela terceira vez este ano, tecla 8

- Para se queixar dos transportes escolares, tecla 9

- Para se queixar dos almoços fornecidos pela escola, tecla 0

- Se já compreendeu que este é o mundo real e que a sua criança deve ser responsabilizada e responsável pelo seu comportamento, pelo seu trabalho na aula, pelos seus tpcs, e que a culpa da falta de esforço do seu filho não é culpa do professor, desligue e tenha um bom dia!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho

Público - 19 Jan 09


Entrevista a Alice Vieira
"Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho"
Bárbara Wong


É por causa dos seus livros que Alice Vieira é convidada para ir às escolas. Há 30 anos, falava de "Rosa, minha irmã Rosa" aos alunos dos 3.º e 4.º anos, hoje fala sobre o mesmo livro aos estudantes dos 7.º e 8.º. "Alguma coisa está mal"


A escritora Alice Vieira começa por dizer que de educação percebe pouco. "Nunca fui professora na minha vida!", justifica. Mas há três décadas que anda pelas escolas e observa o que se passa no mundo da educação. O retrato que faz, reconhece ser "assustador": professores com fraca formação, alunos que não compreendem o que aprendem. Defende mais disciplina e mais autoridade para a escola. Quanto à luta dos docentes confessa, bem disposta: "Saúde e Educação seriam os ministérios que nunca aceitaria!". Teme que se a contestação continuar o ano lectivo possa estar perdido.


Esta é a segunda greve de professores, este ano lectivo. Em que é que estas acções influenciam a qualidade da escola pública?
Os professores têm um calão muito próprio e gostava que um professor e a senhora ministra da Educação se sentassem e me explicassem o que é que é a avaliação? O que é que os professores têm que fazer? Para eu perceber! Os professores dizem que têm muitas fichas para preencher. Que tipo de fichas? O que é que a ministra quer fazer com aquilo?


Sente que a opinião pública tem as mesmas dificuldades em compreender o que se passa?
A maior parte não compreende e os professores queixam-se disso mesmo. Eu não quero acreditar que o que se passa é como aquela anedota, em que "todos vão com o passo errado e só o meu filho é que vai no passo certo". O descontentamento é geral e quando 140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que tenho, desde o princípio é de que a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados, mas ela não sabe transmitir o que quer.


Isso reflecte-se no modo como as negociações têm sido conduzidas?
Sim, é visível nos vai-e-vem. Agora avalia-se assim e depois já é de outra maneira... As pessoas não sabem muito bem o que é ou não é. A ideia que passa é que os professores não querem trabalhar, que não querem ser avaliados e é fácil veicular essa ideia porque os professores são um grupo complicado.


Porquê?
Porque chegam a uma certa altura da carreira, têm os seus direitos adquiridos e é mais difícil aceitar outras coisas. Chega-se a uma altura em que as pessoas estão cansadas.


Sente isso nas escolas aonde vai?
A primeira coisa que ouço dizer é: "Estou cansada", "vou-me reformar", "estou farta disto", "não me pagam para isto"... É só o que eu ouço.


Mas sempre ouviu esses lamentos ou agudizaram-se nos últimos anos?
Há 30 anos que vou às escolas e ouço-o agora. As leis são iguais para todos, mas há escolas onde dá gosto ver o trabalho que os professores fazem, que estão motivados e a ministra é a mesma! Não é a totalidade das escolas, mas sobretudo nas mais afastadas, nas do interior, encontro gente motivada e a fazer bons trabalhos. Essas escolas nem vêm no ranking das melhores. Também vou a privadas, ligadas à Igreja Católica, às vezes converso com professoras minhas amigas e conto-lhes: "Os alunos entram em fila, ou levantam-se quando eu entro, não fazem barulho...". E respondem-me: "Está bem, mas isso é nessas escolas". E eu pergunto: "Mas se está bem para essas escolas, porque é que não está para as outras?!"


A escola pública está a perder qualidade?
Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Eu não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento de autores que deviam ter a obrigação de conhecer... Sabem muito bem o eduquês, mas passar além disso, é difícil. Muitos professores com que lido têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Eles fazem com cada erro, que eu fico doida! E não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. Podem dizer mal entre eles, mas não diante dos alunos, que depois reproduzem e a balda vai ser completa. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem que os professores não são seguros.


E por isso há atitudes de indisciplina e de violência?
Por exemplo, as manifestações dos miúdos também me perturbam um bocadinho, porque eles não sabem o que andam ali a fazer. Os miúdos devem aprender a falar bem, para saber reclamar, reivindicar, é uma questão de educação.


Mas nesse caso a culpa não é da escola, pois não?
Também é. Os professores queixam-se muito que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de educação, o simples "obrigada, se faz favor, desculpe". Quando os alunos vêem os professores na rua, a berrar e a gritar, o que é que eles pensam? Os alunos manifestam-se para exigir melhor ensino? Não. Não os vejo preocupados porque os professores os ensinam mal.


Com alunos e professores na rua, o ano lectivo está perdido?
Não me parece que esteja perdido, se houver bom senso. Não se pode estar a brincar. As pessoas não entendem muito bem que o maior investimento que podem fazer é na educação. Se não tivermos gente educada, a saber, capaz, o que é que vai ser de nós? Estamos a fazer uma geração que não se interessa, não sabe nada, mas berra e grita. E isso perturba-me.


Volto a perguntar, a educação está a perder qualidade?
Eu comecei a ir às escolas há 30 anos, para apresentar o meu primeiro livro "Rosa, minha irmã Rosa" e ía falar com os alunos de 3.º e 4.º anos. Agora vou, exactamente com o mesmo livro falar a alunos dos 7.º e 8.º anos. Alguma coisa está mal. É assustador! Outra coisa assustadora é a utilização da Internet.


Não concorda com o acesso dos mais novos às novas tecnologias?
Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para os colos dos miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita.


E os mais velhos?
Os mais velhos, não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar, eles clicam, copiam e assinam por baixo. Eu chego a uma escola, vou ver e fizeram 50 trabalhos sobre um livro meu, todos iguais, com os mesmos erros e tudo, porque descarregam da Internet. Pergunto aos professores e respondem-me: "Mas eles tiveram tanto trabalho a procurar..." O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes, estou a falar com os alunos e tenho a sensação nítida de que não estão a perceber nada do que eu estou a dizer.


Essa sensação é generalizada?
No geral, as crianças têm muitas, muitas dificuldades. E os professores, logo à partida, têm medo que os alunos se cansem e nem tentam! "O quê? Dar isso? Eles não gostam, cansam-se". Há um medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias da educação. E os professores e os alunos não sabem muito bem o que é que andam a fazer... Aconteceu uma coisa terrível é que tudo tem que ser divertido. Há duas palavras que me põem fora de mim: moderno e lúdico! Tudo tem que ser lúdico, tem de ser divertido, nada pode dar trabalho. Não pode ser!


É preciso mudar a mensagem?
Quando vou às escolas esforço-me imenso por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho. E eles olham para mim como se fosse uma coisa terrível. Há muitas maneiras de se abordar as coisas, mas se os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho... Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso "se fosse em Portugal, não era assim". Eles fazem o que for preciso fazer. Cá dizem que não é da sua competência... Isso é complicado.


Disse que as escolas do interior são diferentes das de Lisboa. Essas diferenças não se devem aos públicos que cada escola acolhe?
Sim, os miúdos de Lisboa têm mais solicitações, ao passo que para os de Trás-os-Montes, a ida de um escritor à escola é uma festa! Em Lisboa já não há lisboetas, há miúdos de todas as terras, de todos os países... E porque é que os miúdos da Europa de Leste se destacam nas escolas? Porque vêm de culturas de trabalho e, desde cedo, ouvem dizer que têm quee trabalhar. Com a democracia, as portas abriram-se, a escola deixou de ser de elite e estão todos na escola. Ainda bem! Mas os professores não estavam preparados para isso e admito que é difícil.


Falta-lhes formação?
Eu gostava de saber onde é que os professores são formados! Mas tendo alunos tão diferentes é necessário fazer formação. Porque, coitados dos professores, são deitados às feras! Como se chega aos alunos? Muitas vezes, olho para eles e vejo que não estão a ouvir nada. E eu apanho o melhor da escola, a parte boa, não tenho um programa para dar. Agora, quem está todos os dias na escola, compreendo que seja um stress terrível. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas impopulares, mas necessárias. Na educação nunca se fez um salto, que é necessário, nunca houve um ministro de quem se diga "fez".


É precisa mais disciplina?
É preciso mais autoridade, o professor não pode fazer nada, não tem autoridade nenhuma. A solução passa por mais interesse e mais disciplina. O gosto pelo que se faz. E o professor tem que sentir esse gosto e passar aos miúdos. A profissão é de risco, de missionário e não de funcionário público na acepção perjurativa da palavra. Não é uma profissão como as outras e não é seguramente a de preencher impressos...


Como é exigido na avaliação?
Voltamos à avaliação! Ela é necessária, todos nós devemos ser avaliados, mas não pelo parceiro do lado ou pelo filho do patrão! Não faço ideia de como é que se avalia, mas na educação existe gente competente, que estudou, e devia ser chamada para dizer como avaliar. Não concordo que sejam avaliados entre eles. Não se pode ser irredutível, quer dum lado [professores] quer do outro [ministério]. As manifestações, no momento a que se chegou, não levam a nada, já vimos que agita, mas não levam a nada.


Parece-lhe que o conflito entre ministério e professores não tem fim à vista?
Os professores estão cansados, o que também é mau, porque aceitar uma situação só porque já se está cansado não é bom. Tem de haver uma solução, senão o ano lectivo perde-se e o culpado não será só um.

O que Sócrates pode aprender com Obama em matéria de Educação

Publico 22 de Dez 08

O que Sócrates pode aprender com Obama em matéria de Educação
José Manuel Fernandes


A escolha de Obama para secretário da Educação recaiu num homem experiente, que gosta de trabalhar com as escolas, de testar soluções (incluindo as charter schools) e que não dita ordens do alto de uma torre de marfim.


Quase todas as escolhas de Barack Obama para a nova Administração têm suscitado alguma controvérsia, e a escolha, a semana passada, de Arne Duncan para secretário da Educação foi, de uma forma geral, elogiada por todos os sectores - ou melhor, por todos menos os ligados a certas áreas da esquerda.


Entre os que mais apreciaram a escolha conta-se Steven D. Levitt, autor do best-seller Freakanomics, que escreveu no seu blogue no New York Times não existir ninguém melhor do que ele para o lugar. Porquê? Porque, além de ser um homem determinado e inteligente, Arne Duncan é um pragmático que não receia testar soluções diferentes para descobrir as que funcionam melhor. Ou até correr riscos desde que haja uma pequena possibilidade de, no fim, ter escolas mais eficientes e alunos mais bem preparados.


Durante os últimos sete anos superintendeu as escolas públicas de Chicago, o terceiro maior distrito escolar do país, e nesse período de tempo conseguiu resultados assinaláveis: basta notar que nas escolas básicas as médias subiram de 38 para 67 por cento nos testes nacionais, tendo Duncan corrido pelo meio o risco de permitir a Levitt que realizasse um estudo sobre fraudes nesse sistema de teste que acabou por levar ao despedimento de vários professores.


Mas não foi só por ter estudado na mesma escola de Obama, gostar como ele de basquetebol e ser de Chicago que o Presidente recém-eleito o escolheu. Foi por algumas das coisas que fez e que o Presidente recém-eleito fez questão de recordar. Por exemplo: durante o seu mandato o número de professores de Chicago que passaram por um teste nacional de certificação subiu de 11 para 1200; os melhores directores escolares, assim como os professores que conseguem fazer progredir os seus alunos passaram a receber prémios monetários; fechou escolas comprovadamente ingovernáveis e substituiu todo o pessoal ao abrir escolas novas; e foi desde sempre um campeão das chamadas charter schools "mesmo quando ainda eram controversas", como sublinhou Obama.


Por isso, desde o liberal Washington Post ao mais conservador Wall Street Journal, a reacção da imprensa foi positiva. Este último jornal deu mesmo mais do que o benefício da dúvida a Duncan, pois considerou que tanto ele "como o [futuro] Presidente têm trabalhado para garantir que as charter schools fazem parte do conjunto de soluções necessárias para melhorar o sistema de educação [dos EUA]".


É neste ponto que José Sócrates pode inspirar-se em Obama e distanciar-se dos que criticaram esta nomeação por ser contra a escola pública (ver, por exemplo, o artigo Obama's betrayal of public education? Arne Duncan and the corporate model of schooling, de Henry A. Giroux and Kenneth Saltman, no blogue t r u t h o u t). E pode fazê-lo em dois pontos centrais, ambos contraditórios com a política do actual Ministério da Educação.


O primeiro é que existe mais do que uma solução possível para melhorar o sistema educativo e que a melhor solução não tem de ser imposta pela burocracia do ministério a todas as escolas, pois nem todas as escolas são iguais. Ora isto implica experimentar soluções diferentes e, entre elas, testar o modelo das charter schools que tanto sucesso têm tido nos Estados Unidos e no Canadá.


E o que são as charter schools? Na Annuália (edições Verbo) do ano passado, Fernando Adão da Fonseca, do Fórum para a Liberdade de Educação, descrevia-as assim: são "escolas públicas cuja gestão é atribuída a entidades privadas, com e sem fins lucrativos, por contrato". O contrato tem objectivos, a autonomia de cada escola relativamente às autoridades é total, o acesso é livre para todos os alunos seja qual for o rendimento da sua família, a exigência é grande e por regra são menos pressionáveis pelos infinitos grupos de interesse que gravitam em torno das escolas públicas tradicionais. Daí que os que nela estudam consigam por regra melhores resultados, como provam os levantamentos realizados em Chicago onde se mostra que estes, em média, ficam 80 por cento acima das escolas públicas tradicionais nos mesmos bairros.


"Ao trocarem entre si a experiência de inovações que funcionam, as charter schools podem ajudar outras escolas e mais estudantes através de todo o sistema público de educação", notava um dos apoiantes desta escolha, Tim King, ele mesmo um impulsionador da experiência em áreas urbanas.


Já quanto ao que Obama disse ao justificar a sua escolha, não poderia ser mais diferente do que temos ouvido aos responsáveis portugueses. Note-se, por exemplo, nesta passagem: "Quando Arne se dirigir aos professores, não o fará falando do alto de uma torre de marfim, antes tendo por base as lições que aprendeu durante os anos em que trabalhou procurando mudar as escolas a partir da base, [não do topo]."

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A nova geração de alcoólicos tem 20, 30 anos

Público última hora - 21 Dez 08


A nova geração de alcoólicos tem 20, 30 anos
Catarina Gomes


Jovens estão a beber mais cedo bebidas cada vez mais poderosas. Às consultas começam a chegar casos de cirrose hepática nestas idades


A O padrão de consumo de álcool mudou: nos últimos anos começaram a chegar às consultas da especialidade doentes alcoólicos na casa dos 20 a 30 anos, quando costumavam andar pelos 40 a 50 anos, referem especialistas contactados pelo PÚBLICO. Iniciações ao consumo cada vez mais precoces e ingestão de bebidas de alto teor alcoólico em pouco tempo contribuem para a antecipação do problema.


"O doente mais tradicional era aquele que começava a beber vinho aos 12 anos e aos 40 a 50 anos adoecia", refere Célia Franco, médica responsável pelo serviço de adições do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra. "Agora começam a beber aos 14-15 anos mas consomem bebidas muito graduadas", fazendo binge drinking, um termo inglês que a Organização Mundial de Saúde descreve como a ingestão excessiva de quatro ou cinco bebidas de uma vez. Resultado? "Adoecem aos 20 a 30 anos com alterações graves do comportamento, agressividade e com doenças psicóticas", resume a médica.


O vinho perdeu popularidade nestas faixas etárias, face à cerveja e a bebidas destiladas como a vodka, o uísque ou os shots (pequenas bebidas com alto teor alcoólico que se bebem de um golo). São hábitos de consumo cujo objectivo é "a alteração de consciência", explica Célia Franco. "Adoecem mais rapidamente porque as quantidades ingeridas em pouco tempo são maiores e os danos mais graves", acrescenta.


Sair à noite é igual a beber


Rui Tato Marinho, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado, fala de casos de cirrose hepática aos 30 anos, "alcoólicos puros" que bebem uma garrafa de uísque por noite. Está provado que o risco de dependência aumenta quase 50 por cento se as bebedeiras começarem aos 13 anos, alerta.


"Não tem graça sair sem beber", ouve a médica Fátima Ismail da boca de alguns jovens. "Se eu não beber sou o único que está sério. Fico à parte do grupo." A coordenadora da consulta de alcoologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, fala de alcoolizações aos 12 e 13 anos - "a partir dos 25 a 27 anos já há pessoas na consulta". Estes jovens alcoólicos chegam-lhe com "alterações de comportamento, pânico, convulsões, quadros depressivos". Em comum têm o facto de surgirem "sem profissões estáveis, sem família constituída".


Fátima Ismail teme que o número de doentes alcoólicos continue a aumentar, porque "as gerações mais novas bebem mais que as gerações anteriores" e esse consumo é muitas vezes a porta de entrada para a mistura com o haxixe ou outras substâncias psicotrópicas. Por outro lado, "há uma tendência para aumentar nas mulheres", que não toleram tanto o álcool, nota a médica. "Com menos quantidades de álcool atingem alcoolemias mais elevadas" e os efeitos tóxicos são mais graves.


Morte aos 29 anos


Laura Leça, directora do Centro Regional de Alcoologia do Norte, conta que os jovens que os procuram a pedir a ajuda chegam por regra "quando a situação já está avançada". A médica - que recebe muitos na casa dos 20 e assistiu mesmo a um caso de morte por cirrose hepática aos 29 anos - alerta para consumos cada vez mais precoces, "em que as próprias famílias não resistem à pressão de pré-adolescentes que já insistem em ter as suas festas fora de casa".


O diagnóstico está traçado, mas a sociedade não parece estar alertada para o problema, concordam os especialistas. "Os pais têm que ser alertados", sublinha Célia Franco, apontando para "a permissividade com que os pais deixam sair os filhos e embriagarem-se".


A médica diz que está provado que o aumento do preço das bebidas e da idade mínima legal são eficazes na diminuição do consumo e lembra que, legalmente, a venda de álcool é proibida a menores de 16 anos, mas "não há qualquer controlo na venda em supermercados", por exemplo.


Laura Leça diz mesmo que é urgente subir a idade mínima dos 16 para os 18 anos, notando que naquelas idades "não há maturidade do fígado para metabolizar o álcool". E lembra o tempo que se demorou a tomar medidas contra o tabaco, quando a evidência científica há muito alertava para os riscos para a saúde.


Bebidas verdes


Vodka com chá verde, licor com frutas antioxidantes, cerveja que mistura água natural, guaraná e extracto de açafrão, ou enriquecida com vitamina B (supostamente destinada a impedir a ressaca) ou com sais minerais, embalagens 100 por cento recicláveis e rótulos de papel de comércio justo. As estratégias de marketing de bebidas alcoólicas estão em constante mudança e têm um objectivo primordial: associarem--se a estilos de vida saudáveis e preocupações ambientais, diz o European Centre for Monitoring Alcohol Marketing (EUCAM), um centro de monitorização com sede na Holanda, num dos seus últimos relatórios deste ano.


Bebidas rosa


Cerveja rosé ou com sabor a maçã, limão, lima e framboesa, garrafas mais pequenas, packs com cinco a dez em vez de seis ou 12, marcas que criam embalagens com uma pequena pega que imita uma malinha de mão de senhora. São algumas das novidades nesta área que pretendem apelar ao sexo feminino, diz o EUCAM. A ideia destas campanhas, assumem os anunciantes, é, no caso da cerveja, despi-la das ideias que a tornam menos atractiva para as mulheres: o cheiro, o sabor e a ideia de que engorda. Os anúncios saem em revistas femininas; parte dos lucros reverte para campanhas como as de rastreio do cancro da mama.


Bebidas com energia


As bebidas energéticas (normalmente com cafeína) tiveram o seu boom na década de 1990. A sua mistura com álcool nos últimos anos fez nascer novas marcas de bebidas energéticas alcoólicas, em que se misturam, por exemplo, com vodka e lima. O EUCAM realça o perigo de o efeito estimulante destas bebidas camuflar o nível de intoxicação pelo álcool. A publicidade está centrada na Internet e estas bebidas são muitas vezes oferecidas em festas e outros eventos; as embalagens são coloridas e os preços baixos. A mensagem veiculada centra-se no facto de, supostamente, ajudarem os jovens a ficar acordados e activos toda a noite. C.G.


Há algumas décadas havia uma clara distinção entre hábitos de consumo de álcool nos países do Norte e do Sul da Europa: nos primeiros bebia-se sobretudo ao fim-de-semana e em grandes quantidades; nos países mediterrânicos, o consumo era mais centrado no vinho e era feito socialmente às refeições.


Hoje, entre os jovens, estas diferenças já quase não se notam, explica ao PÚBLICO Ruth Ruiz, membro da European Alcohol Policy Alliance (Eurocare), que junta cerca de 50 organizações não governamentais e associações em 20 países europeus com projectos na área da prevenção do consumo de álcool.


Hoje pode falar-se daquilo que Ruth Ruiz designa como "uma globalização das tendências na bebida". Os jovens bebem da mesma forma na Dinamarca e no Reino Unido, em Espanha ou na Itália. A primeira experiência com o álcool acontece, em média, aos 12,5 anos, e a primeira embriaguez aos 14, refere. A cerveja é a bebida mais consumida, seguida das espirituosas e das alcopops (bebidas alcoólicas açucaradas, com sabor a fruta e com uma percentagem de álcool que pode variar entre os quatro e seis por cento). Só depois vem o vinho.


"Os alcopops são uma forma de iniciação à bebida, os sabores são doces", o que resulta mais nas raparigas, que estão a beber cada vez mais. "O consumo de álcool nos rapazes é alto mas está mais estável do que nas raparigas, onde era baixo e está a subir mais", refere Ruth Ruiz.


O patrocínio de eventos musicais e desportivos também ajuda a passar "uma imagem positiva, glamorosa e divertida do álcool", alerta a responsável. Por outro lado, muita da regulamentação em torno da publicidade ao álcool dirigida a menores está centrada nos media tradicionais, nomeadamente a televisão, quando para este público as empresas de bebidas usam cada vez mais "os novos media", como a Internet.


As bebidas consumidas têm altos teores de álcool, o que significa que "há pessoas mais novas a buscar tratamento". No Reino Unido - tal como em Portugal - há relatos de médicos que encontram jovens com cirrose na casa dos 30 anos, quando isso acontecia por volta dos 40-45 anos.


Receitas para resolver o problema? Está provado que o aumento do preço das bebidas, especialmente nestas idades, é dos meios mais eficazes para diminuir o consumo, até porque se constata que, em comparação com 1980, o álcool custa hoje menos 69 por cento tendo em conta diferentes indicadores de custo de vida comparativos. "A existência de uma idade legal mínima de consumo também é importante mas tem que ser imposta", com fiscalizações às lojas para se ter a certeza de que não vendem a menores, refere. C.G.


Oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um minuto para a meia-noite. É hora de festejar. Francisco tem oficialmente 16 anos e diz, de charuto na boca, que "agora vai mudar tudo". A partir de agora ele "vai poder beber, legalmente", e "vai poder entrar nas discotecas, legalmente", completam os quatro amigos que o acompanham nos charutos e no festejo simultâneo do aniversário e do fim das aulas, quinta-feira à noite, em Lisboa.


Não que a idade mínima legal tenha até agora sido um impedimento para os quatro amigos, enfatizam com ar orgulhoso, no meio de um aglomerado de jovens que quase invadem a estrada, em frente ao café Boticas, nas ruas do bairro de Santos.


Para comprar bebidas é só ir ao supermercado ou a um café. Sai barato e nunca lhes perguntam a idade, quer quando compram "litrosas" (garrafas de cerveja de litro) ou bebidas como aquela garrafa de moscatel que vão bebericando entre baforadas. Afinal, eles consideram-se "rapazes ajuizados". Um deles conta mesmo que apanhou "a primeira bebedeira dois meses antes de fazer 16 anos".


É preciso ter connects


Bernardo foi mais precoce, embebedou-se aos 12 anos, "mas foi diferente porque estava com o meu pai", que trabalha com vinhos, é engenheiro agrónomo. Estudantes de colégios privados, no topo dos rankings, gabam-se das bebedeiras como das médias nas escolas - 15, 16, 17 valores - e falam das suas supostas capacidades académicas superiores. "Eu tenho uma capacidade de oratória superior à média", "quero ir para medicina, vou ser um oncologista do caraças", "eu vou ser primeiro-ministro".


Bernardo tem 15 anos e entra sem problemas em discotecas. Às vezes, dependendo dos sítios, é um pouco mais complicado, mas há sempre formas de dar a volta. O que é preciso "é ter connects". Cunhas? "Não, connects", reforça o adolescente.


"No Garage [discoteca] só me deixavam entrar porque tenho grande influência lá dentro", diz. Depois, "somos sociais, conhecemos pessoas", falando neste caso de raparigas, outra forma de entrar em discotecas abaixo da idade mínima legal. "Nunca me pedem o Bilhete de Identidade se entrar com meninas."


As raparigas, essas sim, podem entrar em discotecas "com dez anos", com os saltos altos e a maquilhagem que, à noite, as envelhecem uns anos. Um dos jovens, Martim, diz que ficou revoltado quando soube que "a Miss ABS [discoteca] tinha 14 anos". "Eu não admito. A idade legal são os 16 anos. Aos 15 anos chegaram a não me deixar entrar porque não tinha contactos. Elas entram e são privilegiadas", junta Martim.


Nuno, nome fictício, também tem opinião a dar sobre o tema. Com uma idade "por volta dos 16 anos", pensa que "a cultura portuguesa" leva os jovens ao álcool "muito cedo". Como é rapaz "é natural", mas há limites. Já "às raparigas que bebem de mais fica-lhes mal", incorrem num "acto de labreguice".


"As raparigas têm tanto direito de se divertirem como os rapazes", reivindica Madalena, adolescente de 16 anos da Escola Secundária Maria Amália, em Lisboa. E, reconhece, cabelo louro escorrido e ar garoto, é tudo mais fácil para elas.


Começou a ir a discotecas aos 13, 14 anos. "Nunca me pediram o Bilhete de Identidade". Para os porteiros, diz, o critério de entrada, mais do que a idade, passa por estar bem vestida, ter bom aspecto. "A malta mais pequena", como se refere aos jovens com 12 anos, também entra, mas só "se conhecerem pessoal ou se tiverem guest [o nome na lista de convidados]". Madalena não acha mal. Para "a malta pequena, não há idade para a pessoa se começar a divertir".


O vinho está a perder popularidade nas faixas etárias mais jovens, face à cerveja e a bebidas destiladas como a vodka, o uísque ou os shots. São hábitos de consumo cujo objectivo primordial é "a alteração de consciência", segundo uma médica especialista.


12,5


Na Europa, a primeira experiência com álcool dá-se, em média, aos 12,5 anos. A primeira embriaguez acontece aos 14