terça-feira, 8 de abril de 2008

Os valores da câmara

Público - 22 Mar 08

Os valores da câmara

José Vítor Malheiros

São as equipas de televisão que presenciam o fenómeno de perto sempre que fazem uma filmagem de rua. O protesto pode constar de uma dúzia de pessoas a conversar na rua mas, mal se liga a câmara, todas se concentram no cone de luz e gritam com exaltação as suas queixas, os seus sofrimentos, as suas palavras de ordem ou o que for. É assim na faixa de Gaza ou na Ribeira. Desliga-se a câmara e dir-se-ia que a multidão também é desligada. As multidões e os indivíduos menos sofisticados tornaram-se media wise, sabem como usar as câmaras. Sabem que quando a câmara é ligada o tempo é de espectáculo e que os quinze minutos de fama estão à espreita.

As razões para a indisciplina nas escolas são inúmeras, desde a inexistência de uma cultura de cidadania, à demissão das famílias e dos professores, à falta de formação dos educadores, à falta de compreensão do papel das regras na educação, à degradação do ambiente físico e social nas escolas onde tudo convida à conflitualidade e nada à reflexão, à confusão entre permissividade e liberdade, à degradação das competências comunicacionais, à influência do entretenimento que enaltece a brutalidade e à ubiquidade da violência, à pressão dos pares, à necessidade de se destacar e de desafiar as regras.

E a tudo isto vem somar-se a influência nefasta das câmaras de telemóvel, que têm a capacidade de transformar qualquer bulha num espectáculo para a Internet. É nítida no vídeo do Carolina Michaelis essa consciência: quem filma diz aos outros que se afastem, que não entrem em campo, está ali a ser feito um filme e a filmagem inibe ainda mais os que pensassem em intervir - não se estraga o espectáculo, the show must go on. A estranha paralisia dos colegas, que não intervêm para pôr fim ao disparate, tem algo a ver com isto. Será que a protagonista mais jovem do confronto se deu conta de que estava a ser filmada? Será que ela também não quis prejudicar a "acção"? Vídeos destes - muitas vezes mais violentos - são correntes na Grã-Bretanha e nos EUA e pela Internet. Jovens provocam desacatos (na aula, na rua, no centro comercial) para que um/a amigo/a os filme. São encenações para a Web, as lesões um dano colateral. São conhecidas como happy slapping mas não têm nada de happy e já houve alguns que chegaram ao homicídio, num frenesim de violência. Esses jovens sabem que estão a ser filmados e são violentos para ser filmados e porque são filmados, porque a violência lhes garante a visibilidade que nada mais lhes dá e o enquadramento num ecrã lhes dá uma ilusão de idoneidade. O vídeo da Carolina Michaelis tem um triste herói anónimo: o cameraman, o que vai alimentando a acção. É ele, mais que outro, o símbolo da falta de valores que a imagem apenas reflecte. E se os valores da escola não puderem competir com estes, é melhor fechá-la(s).