sábado, 21 de junho de 2008

Chineses revoltados com a derrocada das escolas

Público - 30 Mai 08

Chineses revoltados com a derrocada das escolas

Isabel Gorjão Santos

As manifestações dos pais que perderam os filhos no terramoto que fez tremer a China, a 12 de Maio, estão a transformar-se em protestos. Pergunta-se por que tantas escolas ruíram quando, ao lado, os edifícios do Governo e outras escolas de elite ficaram de pé. As autoridades são acusadas de terem poupado onde não deviam: na qualidade da construção.

O terramoto causou mais de 68 mil mortes, de acordo com os números oficiais. Mas esse número deverá aumentar com o passar do tempo, porque cerca de 20 mil pessoas ainda não foram encontradas. Entre as vítimas estão, pelo menos, 10 mil crianças, grande parte filhos únicos que se encontravam nas aulas quando o sismo transformou as escolas em escombros. "Não estamos a pedir dinheiro. Só queremos que nos digam por que morreram", disse ao jornal New York Times Li Ping, um dos pais que se manifestaram junto às ruínas da Escola Preparatória de Juyuan, em Sichuan, a província mais afectada. "Pus toda a esperança no meu único filho", disse.

"Se os responsáveis pela área da educação não tivessem deixado espaço para a corrupção, os edifícios que caíram seriam tão seguros como a escola primária", admitiu ontem o vice-inspector do departamento educacional de Sichuan, Lin Qiang, à agência noticiosa oficial Nova China. Referia-se à escola primária de Beichuan, que tinha sido construída com dinheiro angariado em acções de caridade e ficou intacta, enquanto outra escola secundária, na mesma zona, ruiu. Era lá que estavam cerca de 1300 adolescentes.

Li Ping recusou transportar a chama olímpica, símbolo dos Jogos que irão começar a 8 de Agosto, em Pequim. "Como responsável da área da educação, tenho especial, embora não directa, responsabilidade sobre aquelas crianças e os seus pais e familiares. Sinto muito por eles. Por isso tenho de rejeitar a honra de transportar a tocha olímpica", explicou à Reuters. Algumas amostras das ruínas das escolas começaram a ser recolhidas para avaliar a qualidade dos materiais usados.

Junto aos escombros das escolas, o choque tem dado lugar à revolta. Liu Lifu, que trabalha numa pedreira, pegou ontem num megafone para pedir justiça. "Pedimos ao Governo uma punição severa para os assassinos responsáveis pelo colapso da escola", disse ao New York Times. E apelou: "Por favor, assinem a petição para que possamos saber a verdade". A sua filha de 15 anos, Liu Li, morreu na derrocada da escola, onde estava a ter aulas de Biologia. Não há uma contagem oficial, mas os pais asseguram que apenas 13 dos 900 alunos escaparam à derrocada da Escola Preparatória de Juyuan. Outros 127 alunos terão morrido na escola de Fuxim.

A actriz Sharon Stone causou uma forte polémica ao questionar, durante uma entrevista em Cannes, se o terramoto não seria um "karma" para a China, algo de mau que aconteceu por causa da repressão no Tibete. As suas declarações revoltaram os chineses e ontem a actriz pediu desculpa "por qualquer ofensa". A marca Christian Dior decidiu retirar do mercado chinês os anúncios publicitários em que participa Sharon Stone

Dicionário do Calão foi suspenso

Portugal Diário - 19 Mai 08

Dicionário do Calão foi suspenso

Site «Tu alinhas» está em reformulação

O Dicionário de Calão do site «Tu Alinhas» foi suspenso e está a ser reformulado pela equipa que o criou, revelou o presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT), organismo responsável pelo projecto infanto-juvenil, noticia a agência Lusa.

O presidente do IDT, João Goulão, disse que o «Dicionário de Calão foi suspenso na quinta-feira passada por causa de toda a polémica que se criou à volta de algumas definições».

O conteúdo do dicionário era destinado a crianças e jovens a partir dos 11 anos e, segundo alguns pais e psicólogos, podia incentivar o consumo de drogas e «fomentar um estilo de vida pouco saudável».

Dizia o dicionário que «betinho» ou «cocó» era «aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante». Havia ainda definições que os encarregados de educação consideravam ser «quase um manual de instruções».

«O site está no ar desde Fevereiro do ano passado e tem lá a indicação de que está em construção. Mas nunca ninguém nos fez qualquer sugestão ou deu uma opinião negativa sobre o dicionário. Como não somos autistas, estamos abertos a críticas e sugestões. Perante a polémica decidimos voltar a olhar para o site e fazer uma reflexão», explicou João Goulão.

Agora, quem for à página descobre que o «Dicionário de Calão (está) em revisão». Segundo o presidente, o dicionário está a ser avaliado pela mesma equipa do IDT que o criou, sendo expectável que ainda esta semana sejam conhecidas algumas alterações.

«A equipa que o criou está a rever os conteúdos e admito que alguns possam vir a ser reformulados. No entanto, acho desproporcionada toda esta polémica em torno de algumas definições», disse à Lusa.

Também o grupo parlamentar do CDS-PP criticou o site, tendo anunciado este domingo que pretende pedir uma audição do presidente do IDT na comissão parlamentar de Saúde para explicar a publicação do dicionário.

Numa carta enviada domingo à comissão de Saúde, a deputada do CDS-PP Teresa Caeiro afirmava que o objectivo era que João Goulão explicasse a publicação do «dicionário» que incute nos jovens «uma ideia negativa e injuriosa dos que não consomem drogas».

Para o CDS-PP, o instituto presidido por João Goulão «é um organismo que prossegue fins públicos», sendo «inaceitável que trate com ligeireza o consumo de droga e que incentive frases de quem se acha engraçadinho».

João Goulão garante que a suspensão do dicionário «não tem propriamente a ver com a posição do CDS, mas sim com uma abertura a todas as críticas que chegam ao IDT».

Muitas críticas

Os pais - através da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) e da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) - foram os mais críticos.

A CNIPE anunciou logo na semana passada que iria pedir ao IDT a reformulação do site, por considerar «muito preocupante» a transmissão de uma «imagem convidativa das drogas», nomeadamente através da utilização de adjectivos como «brilhante» ou «cativante».

A CNIPE referia-se à definição de palavras como «Queimar», que segundo o dicionário significava «aquecer com o isqueiro a heroína ou cocaína, até fazer a bolha brilhante, cativante e vaporosa cujo fumo será inalado com a ajuda de uma nota enrolada em tubo».

Site era popular

Apesar de ter sido criada há pouco mais de um ano, a página já recebeu cerca de 20.500 visitas desde Janeiro.

De acordo com a responsável pelo site do IDT, Patrícia Pissarra, a criação deste sítio na Internet surgiu para dar resposta às muitas dúvidas que os jovens colocavam através da linha SOS Droga, colmatando uma lacuna sentida pelo IDT na abordagem aos mais novos.

Betinho, cocó e careta

Público - 16 Mai 08

Betinho, cocó e careta

José Miguel Júdice

O IDT e os insensatos que fizeram este dicionário consideram-me seguramente conservador, desprezível e desinteressante

Os factos são simples. O Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) elaborou ou mandou elaborar um Dicionário do Calão, que também está disponível num site com o sugestivo (e premonitório?) nome tu-alinhas.pt que o IDT direcciona para crianças com mais de 11 anos. Recordo que as principais missões do IDT são "planear, coordenar, executar e promover a avaliação de programas de prevenção, de tratamento, de redução de riscos, de minimização de danos e de reinserção social" e "apoiar acções para potenciar a dissuasão dos consumos de substâncias psicoactivas".

Entre as mencionadas missões não consta, portanto, a edição e divulgação de dicionários.

Segundo a opinião de uma confederação de pais, o citado dicionário transmite uma "imagem convidativa das drogas". As citações de algumas definições convencem-me: se há exagero nessa opinião é no sentido de ser demasiado moderada para o que constitui um inconcebível escândalo e uma intolerável utilização de dinheiros públicos para fins não apenas estranhos, mas opostos aos que competem ao IDT.

Querem exemplos? Vejam (e cito do Diário de Notícias): "curtir - sentir o prazer da droga"; "queimar - é aquecer com o isqueiro a heroína ou a cocaína, até fazer a bolha brilhante, cativante e vaporosa..."; "betinho, cocó ou careta - é aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante".

Perante isto o presidente do tal IDT terá informado que este disparate foi feito com a colaboração do Ministério da Educação (!), que "tem alguma utilidade" (!!), que serve para os jovens não ficarem mal informados (!!!) e para não se sentirem menorizados por não saberem afinal o que significam estes termos (!!!!).

Convém clarificar que sou favorável à alteração do regime legal do consumo e da venda de drogas. Acho que as drogas deveriam ser legalizadas, regulamentadas, taxadas. Considero que os que caem sob a influência de drogas devem ser tratados em termos de saúde pública e não como criminosos. Não estigmatizo nem nunca estigmatizarei os que se drogam e entendo que todos temos o dever cívico de contribuir para diminuir este flagelo. Por exemplo, sou favorável a programas de troca de seringas nas cadeias.

Perceber-se-á, portanto, que a minha reacção não se baseia em preconceitos ideológicos ou em tentativa de aproveitamento destes factos para finalidades políticas conducentes ao reforço da penalização do consumo de drogas.

Estou profundamente chocado, apesar da minha idade já me ter tornado numa pessoa que começa a não se espantar com muita coisa. O relativismo em que vivemos e a tendência para cada notícia destruir a anterior fez com que este assunto passasse quase sem comentários. Em minha opinião, o que se passa com este tipo de acção do IDT é, mal comparado, o que se passa por vezes com antropólogos que se dedicam a estudar povos primitivos e que, parafraseando Camões, se transformam de "amador em coisa amada". Realmente, muitas vezes apaixonam-se de tal modo pelo objecto de investigação que perdem o distanciamento e o espírito científico, convencendo-se de que os sistemas sociais e os modos de vida desses povos são um exemplo de perfeição que se pode comparar com vantagem com as sociedades contemporâneas.

Quero acreditar que o dr. João Goulão, que preside à instituição, não é favorável à promoção do consumo de drogas por jovens a partir dos 11 anos. Quero mesmo acreditar que não é intelectualmente destituído nem padece de incapacidade profunda de discernir a realidade. Chego ao ponto de admitir que as declarações esfarrapadas e insensatas com que nos brindam os media não foram feitas por ele ou, tendo-o sido, não se destinavam a gozar connosco.

Por isso, para mim do que se trata é de uma tentativa que faz lembrar aqueles pais que julgam que educam os filhos se optarem por infantilizar os seus comportamentos como se tivesse dez anos, e tentam ser "porreiros", "compinchas", "cool". Com isso perdem o sentido da distância e não percebem que os nossos filhos menores não precisam que os pais sejam cúmplices nos criancices, mas da certeza de que se precisarem de ajuda os pais não falham, porque estão atentos, tentam evitar os erros dos jovens e alertá-los para os riscos.

O dr. Goulão, no fundo, parece querer ser "um gajo porreiro", um verdadeiro "mano", "estar na onda", pois "está-se bem", "méquié", "tudo em altas", pois está-se a "flipar". Acho que aspira mesmo a ser um "granda boss". E que não ousem espantar-se com ele e dizer "kecenameu". O presidente do IDT pensa que, se os dependentes da droga o olharem como uma espécie de pai vivaço, porreiraço, modernaço, a sua missão será mais fácil. Não é; o efeito será precisamente o oposto.

As coisas são o que são. Por muito menos do que isto, responsáveis políticos se demitem por esse mundo fora. Com muito menos responsabilidade, pelas mortes em Entre-os-Rios, demitiu-se o ministro Jorge Coelho.

Por tudo isto arrisco ser estigmatizado na próxima edição do já célebre dicionário. Acho que é imperdoável o que o IDT fez, que a culpa não pode morrer solteira e que o dr. Goulão deve ser mandado para a vida privada para fazer os dicionários que quiser, mas não com o dinheiro dos meus impostos.

O IDT e os insensatos que fizeram este dicionário consideram-me seguramente conservador, desprezível e desinteressante. Paciência. É isso que pensa este betinho, cocó e careta. Advogado

Diploma do CDS-PP para maior autonomia das escolas chumbado no Parlamento

Público última hora - 14 Mai 08

Com votos contra do PS, PCP, PEV, BE Diploma do CDS-PP para maior autonomia das escolas chumbado no Parlamento

O projecto de lei do CDS-PP sobre autonomia das escolas foi hoje rejeitado na Assembleia da República, num debate em que o Governo acabou por ser também criticado devido à aprovação recente do regime de gestão escolar.

O diploma teve os votos contra do PS, do PCP, PEV, BE e da deputada não inscrita Luísa Mesquita e mereceu os votos favoráveis do PSD, que se associou às críticas dos democratas-cristãos contra "o facilitismo e o laxismo" das políticas do Ministério da Educação.

No debate, o PCP e o BE acusaram o CDS-PP de querer "abrir caminho à privatização do sistema de ensino" para "dar um dinheirinho do Estado às escolas privadas".

Segundo o modelo do CDS-PP, o Estado financiaria as escolas que aderissem à "rede pública" através de "contratos de autonomia" para assegurar a gratuitidade do ensino nessas escolas.

Entre as medidas propostas no diploma do CDS-PP, Paulo Portas destacou o direito de os pais escolherem a escola dos filhos, questionando a bancada do PS sobre o valor que dão à liberdade. "Hoje a liberdade é só dos que podem pagar. E quem não tem rendimentos suficientes? Não escolhe [a escola], é escolhido pelo Estado sem qualquer critério de preferência pessoal", afirmou.

A resposta a esta questão veio só no final do debate, com o deputado do PS Bravo Nico a contrapor que, para os socialistas, é mais importante "que a escola pública seja instrumento de igualdade". "O que nós queremos é que o filho da família mais rica possa ter confiança na escola pública. E que seja a escola pública instrumento de igualdade, equidade e desenvolvimento do país", afirmou.

Lusa

Autarquia vai oferecer material e manuais escolares a crianças 1º ciclo

Público última hora - 14 Mai 08

Medida abrange 12 mil alunos de 103 escolasGaia: Autarquia vai oferecer material e manuais escolares a crianças 1º ciclo

O presidente da Câmara de Gaia anunciou hoje que a partir do próximo ano lectivo a autarquia vai oferecer manuais e o material escolar aos alunos das escolas públicas do 1º ciclo do ensino básico. Luís Filipe Menezes disse que no máximo em três anos todas as crianças serão abrangidas por esta nova medida.

O autarca, que falava esta manhã no âmbito da assinatura de um protocolo de cooperação com a Federação das Associações de Pais do concelho, frisou que a implementação desta medida nas escolas será progressiva, sendo que o objectivo é que daqui a três anos os pais tenham "custo zero" com este material.

A medida é para implementar "de forma uniforme em todas as escolas e definir uma percentagem progressiva para se chegar aos 100 por cento" de cobertura, frisou, acrescentando que esta oferta representa um investimento de "cerca de 1,2 milhões de euros".

O vereador da Educação, Firmino Pereira, adiantou que serão abrangidos cerca de 12 mil alunos das 103 escolas do 1º ciclo existentes no concelho.

Para o presidente da Câmara, a oferta deste material visa melhorar a qualidade de vida da população. Menezes disse ainda que esta medida é também "uma forma de estimular a natalidade no concelho" e "de estimular mais jovens a viver em Gaia".

"Os próximos anos têm que ser virados para alguma imaterialidade", disse, "para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos". Luís Filipe Menezes anunciou ainda que vai abolir o imposto de rampas a partir do próximo ano, uma medida que retirará "cerca de um milhão de euros" aos cofres da autarquia.

Lusa

Definição de "betinho" em glossário do IDT gera polémica

Público - 13 Mai 08

Definição de "betinho" em glossário do IDT gera polémica

Segundo o dicionário oficial criado pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) destinado a crianças e jovens a partir dos 11 anos (em www.tu-alinhas.pt), "betinho", "cocó" ou "careta" é "aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante".

Confrontada com esta enciclopédia de termos e significados relacionados com o mundo da droga e toxicodependência, a Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) considerou "muito preocupante" que seja transmitida uma "imagem convidativa das drogas". "É fundamental que os jovens sejam informados, mas a forma como a informação está disponibilizada aumenta seguramente a curiosidade dos miúdos em relação às drogas. Pode fazer com que eles não queiram ser os betinhos que não consomem."

Para a deputada do CDS-PP, Teresa Caeiro, "o dicionário do IDT é irresponsável. Passar a ideia que um betinho é alguém que não se droga e por isso desinteressante e conservador é uma brincadeira de muito mau gosto". "O IDT é um organismo público que prossegue fins públicos. É por isso inaceitável que trate com ligeireza o consumo de droga e que incentive frases de quem se acha engraçadinho", criticou, referindo que a direcção do IDT devia "ser responsável perante o erro".

Também Eduardo Correia, presidente do Movimento Mérito e Sociedade (MMS), considerou "necessária a demissão imediata de toda a direcção do IDT", defendendo que "o trabalho não tem apresentado resultados merecedores de qualquer referência positiva no nível de qualidade de vida das famílias em Portugal".

Em declarações à agência Lusa, o presidente do IDT, João Goulão, disse que o dicionário "tem alguma utilidade" e explicou que é mais seguro para um jovem consultar um glossário do que ficar mal informado. Goulão adianta que um jovem que desconheça um termo sente-se menorizado e pouco à-vontade para perguntar o significado. "Isso pode ser muito mais perturbador e muito mais desencadeador de curiosidade do que propriamente ter um local onde encontrar respostas às suas dúvidas", acrescentou.

O presidente do IDT disse ainda que o site foi "elaborado e preparado com a colaboração das estruturas do ministério da Educação". "Não estamos fechados a mais reflexão sobre o assunto (dicionário), mas à partida não me parece que haja necessidade disso", esclareceu.

João Goulão defende que o glossário tem utilidade e que foi feito com a colaboração do Ministério da Educação

Escola, autoridade e hipocrisia

Público - 13 Mai 08

Escola, autoridade e hipocrisia

Santana-Maia Leonardo

Uma das consequências mais nefastas do salazarismo foi a identificação, na alma lusa, do conceito de autoridade com o de repressão fascista, que para o cidadão comum passaram a ser sinónimos. Por essa razão, toda a gente hoje se queixa de falta de autoridade, mas não há ninguém que consiga dar substância a esse conceito, porque todos rejeitam liminarmente o uso da força. Ora, não existe autoridade sem que esteja subjacente o exercício da força.

Durante muitos anos, a autoridade dos professores era uma autoridade delegada. Para que um aluno obedecesse ou respeitasse o professor, bastava a ameaça de chamar o pai. Isso suficientemente dissuasor. E a escola tinha as portas abertas. Quem não se portasse bem era, pura e simplesmente, expulso.

Acontece que, neste momento, não vale a pena fazer apelo aos pais. Durante os últimos 30 anos, desestruturámos completamente as famílias. Pais, no sentido de um casal que, em conjunto, tem por desígnio educar e criar os filhos, são uma espécie em vias de extinção. Hoje o único cimento da maior parte das famílias são os avós. Não tarda muito que o Estado tenha de assumir por inteiro a responsabilidade de educar as crianças, porque os pais são já, na maior parte dos casos, indivíduos avulsos que transitam pela vida dos menores sem nunca aí se fixarem.

Por outro lado, a escolaridade obrigatória impede os indesejados de serem atirados para fora do sistema. E os indesejados (uma doença contagiosa) constituem um grupo em crescimento, que detesta a escola, muitos deles não querem sequer lá andar e os pais ou são piores do que os filhos, ou têm medo dos filhos. Aliás, hoje são já os professores que têm medo que certos filhos chamem os pais e não o contrário. Ora, como é que se lida com esta gente? Estou a falar de jovens até aos 12/13 anos, porque, quando eles chegam aos 14 anos, sem qualquer orientação, já só se lá vai com a polícia. (...) A solução para resolver este problema teria de passar necessariamente pela coragem de expulsar da escola todos os alunos que tivessem condutas anti-sociais graves, remetendo-os para escolas especiais criadas para o efeito. A expulsão teria ainda o mérito de funcionar como medida disciplinar altamente dissuasora, levando muitos jovens a esforçar-se para não serem tão indesejados. Mas isso seria assim se não vivêssemos numa sociedade que tem por trave mestra a hipocrisia.

Por esta razão, direita e esquerda procuram tornear a questão, cada uma a seu modo: a direita, defendendo o cheque-ensino e a liberdade de escolha (ou seja, já que eu não posso expulsar os indesejados da escola do meu filho, então quero ter o direito a escolher a escola do meu filho); a esquerda, defendendo a escola inclusiva, ao mesmo tempo que opta por colocar os seus filhos nos colégios privados.

Educar com autoridade e sem autoritarismo

Voz do Sado - Mai 08

Educar com autoridade e sem autoritarismo

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Chama-se Summerhill. É um famoso colégio britânico que, nos anos sessenta, ficou conhecido pela sua defesa de uma educação sem a presença “atemorizadora” da autoridade dos professores. Seria uma educação livre, arejada, sem constrangimentos de nenhum tipo. Professores e alunos procurariam ajudar-se mutuamente, com uma sã camaradagem, e assim trabalhariam lado a lado naquele revolucionário projecto educativo.

Para alcançar tais objectivos, os directivos do colégio criaram um método pedagógico verdadeiramente inovador. Acreditavam que seria a grande solução para os problemas educativos da época. Não haveria exames nem notas classificativas. A assistência às aulas seria totalmente voluntária. A gestão da própria escola seria, muitas vezes, efectuada pelos próprios alunos, através de uma assembleia onde se discutiriam os problemas reais e as suas possíveis soluções.

A escola tinha sido fundada em 1921. Com esta inovação educativa na década de sessenta, viveu um tempo de apogeu e teve um aumento significativo de alunos. No entanto, poucos anos depois da implantação do novo método pedagógico, o colégio começou vertiginosamente a perder alunos. Constatava-se com uma certa surpresa que, apesar de todo o esforço por implementar o novo método, os estudantes não saíam bem preparados da escola. A sua formação apresentava grandes lacunas e deficiências. As famílias dos alunos tinham deixado de acreditar na eficácia do novo método pedagógico.

É uma ingenuidade bastante perigosa imaginar que podemos educar sem autoridade. Talvez este modo de pensar proceda de uma certa confusão entre o que significa autoridade e o que significa autoritarismo. O autoritarismo é um abuso da autoridade. É usar a autoridade não para educar, mas para impor-se aos outros sem respeitar a sua legítima liberdade. É não entender que educar significa, antes de qualquer outra coisa, ensinar a usar bem a liberdade. É pensar que só existe a liberdade daquele que educa e não a daquele que é educado.

Geralmente, ninguém tem saudades de professores autoritários. Professores que atemorizam os alunos e geram um ambiente desagradável à sua volta. Professores do estilo “posso, quero e mando”. O autoritarismo exige pouco talento, pouca arte e muito pouca imaginação. Sempre foi uma má estratégia educativa. Um professor autoritário nunca foi um bom professor.

Com o autoritarismo não se educa, mas com a ausência de autoridade também não. A autoridade é essencial para que haja uma verdadeira educação dos alunos. É com autoridade que os professores conseguem educar na liberdade. É evidente que o crescimento da violência escolar está intimamente unido à crise de autoridade. Esta crise gera nos alunos um receio diante da possibilidade de, algum dia, terem eles próprios de exercer a autoridade. Sentem-se inseguros com esta perspectiva e não amadurecem, porque não se sentem capazes de assumir responsabilidades. E não nos esqueçamos que os jovens são educados para serem adultos, não para continuarem eternamente adolescentes.

Bullying: linha telefónica para maus tratos na escola

Portugal Diário - 12 Mai 08

Bullying: linha telefónica para maus tratos na escola

O número ninguém sabe ao certo, mas estima-se que milhares de alunos sejam vítimas das mais diversas formas de bullying -termo que significa provocação ou vitimação - nas escolas portuguesas.

A partir desta segunda-feira, uma linha telefónica estará em funcionamento os ouvir e lhes prestar a ajuda necessária e de forma confidencial. Trata-se do número 808 968 888.

A nova linha de atendimento estará em funcionamento até ao final do ano lectivo, diariamente, entre as 18 e as 20 horas. Os problemas dos alunos serão expostos a técnicos especializados.

Dependendo da gravidade do problema, os casos serão encaminhados psicólogos, psicopedagogos ou mediadores de conflitos. O apoio será sempre dado através da linha e não em forma presencial.
De acordo com relatórios da UNESCO, entre 25 a 50 por cento de toda a classe estudantil está a ser vítima de bullying, definido como o comportamento agressivo e intencional de alunos mais velhos, fortes ou populares sobre colegas mais novos e com menos popularidade, vítimas de rejeição social, insultos diários e até maus-tratos físicos.

Jovens

Público - 08 Mai 08

Jovens

Constança Cunha e Sá

Os "jovens" são limitados pelo seu umbigo e pelo imediatismo dos seus interesses

A pretexto do discurso do Presidente da República, no 25 de Abril, os "jovens" voltaram, uma vez mais, à tona da actualidade. Como se sabe, é de bom-tom falar nos "jovens". Angustiar-nos com a sua falta de horizontes, compreender as suas preocupações, partilhar os seus entusiasmos e, naturalmente, preocuparmo-nos solenemente com o seu manifesto desprezo por determinadas actividades. Pela política, conforme referiu o Cavaco Silva, baseado num estudo sobre os jovens e a política. Mas também pela leitura ou pela música ou por qualquer outro item de natureza cultural.

Volta e meia, a nossa agradável rotina é sobressaltado pela divulgação de um estudo assustador que revela que os "jovens" não nutrem uma edificante curiosidade pela nossa história recente ou que mantêm as devidas distâncias em relação às artes da culinária ou aos desafios da ciência. Perante isto, não se percebe muito bem por que é que esses mesmos "jovens" se deveriam interessar pelas aventuras do eng. Sócrates ou pelas peripécias do PSD. Mas o Presidente lá terá as suas razões!

Pouco importa que os "jovens" sejam um segmento da população particularmente limitado pelo seu umbigo e pelo imediatismo dos seus interesses. Numa sociedade infantilizada que estigmatiza a velhice e privilegia a novidade, a juventude adquiriu um valor irrefutável que ninguém se atreve a contrariar. Os jovens estão "insatisfeitos" com a democracia? O Presidente, preocupado com essa legítima "insatisfação" e com o "autismo de uma certa classe política", apressa-se a recomendar uma "nova atitude" e uma maior "proximidade" que propiciem um saudável "clima de confiança" entre governantes e governados.

É verdade que, neste ponto preciso, Cavaco Silva substituiu habilidosamente os "jovens" por "cidadãos", esclarecendo que os partidos não fizeram o necessário reforço para a credibilização da vida pública". Para mais à frente poder dizer que "vender ilusões não é certamente a melhor forma de fortalecer o imprescindível clima de confiança". Mais do que um juízo sobre as promessas eleitorais que o eng. Sócrates deixou por cumprir, estas palavras parecem ser antes um aviso ao primeiro-ministro para os tempos pré-eleitorais que se avizinham. No entanto, este tipo de subtilezas não teve qualquer eco na opinião pública. Com o Governo a concordar entusiasticamente com o diagnóstico negativo apresentado pelo Presidente, o que passou para o exterior foi a angustiante confirmação de que os "jovens" não se revêem nesta democracia. Curiosamente, os dados do estudo, realizado pela Universidade Católica, oferecem uma imagem um pouco diferente. Enquanto os jovens (15 a 17 anos), esses deserdados do sistema, acreditam, na sua maioria, que a sociedade "pode melhorar com pequenas mudanças", havendo mesmo seis por cento de optimistas que consideram que a situação "está bem como está", a revolução espreita no sossego da meia-idade. Traduzindo por números, fica-se a saber que 48 por cento da população em geral consideram que essa mesma sociedade "necessita de reformas profundas" e que, por sua vez, 23 por cento acham que o cenário "deve ser radicalmente mudado". Se somarmos estes dois grupos de "agitadores", chegamos a um número significativo: 71 por cento dos portugueses querem que o país sofra, no mínimo, uma transformação de fundo ou, no máximo, uma alteração radical, seja o que for que isso queira dizer - e diga-se, desde já, que não parece que isso queira dizer nada de particularmente agradável. Os "brandos costumes", essa ficção indígena que os factos desmentem diariamente, correm o risco de ser definitivamente enfiados na gaveta onde já se encontra essa outra ficção que é o socialismo do PS.

Estes dados inquietantes não comoveram, no entanto, o Presidente da República: convicto da importância única dos jovens e da justa invulnerabilidade dos seus interesses, Cavaco Silva dedicou-lhes o 25 de Abril e uma retórica florida onde se misturavam harmoniosamente os preconceitos da época e os lugares-comuns da praxe. Dramatizar o afastamento entre os jovens e a política, quando a grande maioria da população portuguesa se mostra "insatisfeita" com o funcionamento da democracia, é reduzir a realidade a uma ideia feita que, como qualquer ideia feita, tem o duvidoso mérito de ser consensual.

Por fim, confundir o desinteresse pela política (que existe) com a manifesta ignorância da espécie, para além de se prestar aos mais lamentáveis equívocos, faz com que, em vez de um "clima de proximidade", se crie antes uma relação de promiscuidade. Se metade dos jovens inquiridos não sabe qual o número de Estados da União Europeia, desconhece quem foi o primeiro Presidente eleito após o 25 de Abril e não faz ideia se o PS tem maioria absoluta no Parlamento, o melhor que os políticos têm a fazer é pensar melhor no que se tem passado na Educação. Jornalista

Finlândia, Portugal ou como nunca aprendemos o essencial

Público - 05 Mai 08

Finlândia, Portugal ou como nunca aprendemos o essencial

José Manuel Fernandes

As estatísticas ajudam a perceber a realidade, mas não são a realidade. Por vezes até ajudam a distorcê-la em função de objectivos políticos de curto prazo

Uma leitora, professora em Setúbal, contava ontem nesta página, numa carta ao director, como era difícil lidar, no 10.º ano, com um aluno de Inglês que, desde o 5.º ano, passara sempre com negativas e nem sabia como se escreviam em inglês palavras tão simples como "mais" ou "o". O que a carta dessa professora mostrava era como uma coisa são as estatísticas, outra a realidade: as primeiras podem ser manipuladas, a segunda é o que é.

Na verdade, as estatísticas são retratos da realidade, não são a realidade. Podemos saber de cor milhares de estatísticas sobre o sistema de ensino, mas nunca entenderemos nada sem passar por uma sala de aula. Da mesma forma que podemos ter visto dezenas de reportagens e fotografias sobre obras de arte e locais maravilhosos, mas só os entenderemos quando estivermos lá, a vê-los, a senti-los. Podemos saber tudo, ou julgar que sabemos tudo sobre o Holocausto, por exemplo, mas haverá sempre, na nossa compreensão do horror, um antes e um depois de ter visitado Auschwitz, por exemplo. E se nunca tivermos entrado em Rabo de Peixe, nos Açores, dificilmente perceberemos por que há uma pobreza tão teimosa e tão difícil de erradicar.

Mais: um dos dramas dos Governos modernos é que dominam bem os números e as estatísticas, mas com frequência nada sabem sobre a vida comum dos seus concidadãos. José Pacheco Pereira contava-nos aqui, na sexta-feira, como era diferente passar, em campanha eleitoral, por um lar de idosos cujo director era "nosso amigo" ou arriscar ir distribuir comunicados para a saída de uma fábrica. Talvez valha a pena ir mais longe, e incluir no tirocínio de um candidato a deputado ou a ministro ter de acompanhar um dia a distribuição de comida pelos famintos de Lisboa num carro da Comunidade Justiça e Paz, passar umas tardes como voluntário num hospital, junto de doentes terminais, ou ir uma semana, incógnito, dar aulas numa dessas escolas problemáticas que às vezes são notícia nos telejornais e polarizam os famosos "directos" de que, ontem, aqui falava António Barreto.

A seguir olharão para as estatísticas com mais prudência, idealmente com mais humildade.

O discurso sobre as estatísticas tem surgido, nos últimos anos, quase sempre acompanhado por um discurso sobre o "milagre finlandês". De facto, basta consultarmos as estatísticas da Finlândia para corarmos de vergonha. Mas só isso.

Sobre o resto é necessário ver para além das estatísticas, especialmente quando elas se destinam a defender aquilo que desafia a intuição e a experiência portuguesa, como é o caso da defesa de que deve ser ainda mais difícil reter um aluno que não tem as competências mínimas para passar de ano, como se prepara para fazer o Ministério da Educação. Até porque se com menos "chumbos" Portugal terá melhores estatísticas de Educação, pode no final ficar com um pior sistema educativo e com cidadãos ainda pior preparados para o mundo moderno.

É por isso que vale a pena olhar para a Finlândia para perceber que os nossos problemas nunca poderão ser resolvidos com uma "receita finlandesa" pela razão simples de que quase tudo nos separa, histórica e culturalmente, da Finlândia.

Já se referiu nestas páginas o estudo do sociólogo Manuel Castells sobre a Finlândia - The Information Society and the Welfare State: The Finish Model - para concluir que nos "faltam todas, ou quase todas, as chaves do sucesso". Por muitas e variadas razões, que vão desde sermos um velho país e uma antiga potência colonial (a Finlândia só é independente há pouco mais de um século) ao facto de desconhecermos o sentido de praticar uma rigorosa ética protestante, ou de possuirmos uma velhíssima hierarquia social por contraponto com um país que nunca conheceu sequer uma nobreza nacional, ou ainda de sermos um dos países da Europa onde as crianças passam mais tempo em frente da televisão e a Finlândia o país do Mundo onde os pais dedicam mais tempo a ler histórias infantis aos seus filhos.

Por outras palavras, que as estatísticas até podem ilustrar: o nosso problema é, há séculos a esta parte, um problema de défice de "capital social", não de capital financeiro ou de capital humano. É por isso que ler Castells, mas também ler Fukuyama e Huntington, é capaz de ser mais útil do que ler, para mais de forma distorcida, todas as estatísticas de todos os estudos da OCDE. Porque em Educação, como em quase tudo o resto nas sociedades modernas, o conceito--chave é o de maximizar o "capital social".

Não reprovemos os alunos, diz a OCDE

Público - 04 Mai 08

Não reprovemos os alunos, diz a OCDE

Carmo Gago da Silva, professora, Setúbal

A propósito do artigo de primeira página no PÚBLICO de 30 de Abril, deixem-me contar-vos uma pequena história verídica: sou professora de Inglês numa escola secundária. Há tempos, um aluno de 10.º ano, nível 6 da língua inglesa, procurava desesperadamente no dicionário, palavra a palavra, durante um teste, tudo o que não sabia. Vendo que estava a perder muito tempo, abeirei-me dele e pedi-lhe que me dissesse o que procurava porque estava a perder muito tempo. Procurava a palavra "mas"! Fiquei perplexa e respondi-lhe: "Então não é but?" Agradeceu-me e, mal eu virei as costas, chamou-me e disse-me: "Já agora, professora, podia dizer-me como se diz "o". E eu: "o" de o, a, os, as?" Sim, foi a resposta!

Não estou a brincar, juro. Acontece que este aluno NUNCA tinha tido uma única nota positiva a Inglês desde o 5.º ano de escolaridade. Chamei a mãe que, ingenuamente, me confirmou que, como ele, "não dava para o Inglês", já lhe tinha dito que estudasse as outras disciplinas e deixasse aquela de lado.

Na mesma turma, de 27 alunos, havia excelentes alunos na disciplina, outros que tinham explicação, outros que andavam no Instituto de Línguas há anos, etc. Como é que no fim do ano, por mais esforços que o professor faça, se passa um aluno destes que nem sequer compreende uma palavra do que eu digo nas aulas? No secundário, como é sabido, as disciplinas são de passagem obrigatória, uma a uma.

E falam da Finlândia! O primeiro-ministro esteve na Finlândia a ver as escolas e veio de lá encantado. Eu conheço bem o sistema finlandês e por isso me pergunto: será que não reparou que, dentro da sala de aula, há outro professor só para ajudar estes alunos e não fazer os outros perderem tempo de aprendizagem? Será que a OCDE sabe que as famosas aulas de apoio em Portugal são facultativas ao nível do secundário? Será que a OCDE sabe que as aulas de apoio em Portugal não são "tempos lectivos" no novo Estatuto da Carreira Docente, ou seja, "ensina-se" mas não se está a "leccionar"? Será que os pais dos outros países estudados pela OCDE dizem aos filhos para deixarem uma ou duas ou três disciplinas de lado porque "não dão para aquilo"?

Não brinquem com o ensino e com os professores, se faz favor. Venham, incógnitos, disfarçados, escondidos ou às claras, ver o que se passa nas nossas escolas. Por favor, não se deixem enganar por aqueles que julgam que, por decreto, boa vontade, caridade cristã, se passam alunos que nunca perceberam o que significa estudar.

O Presidente da República espanta-se com a ignorância dos jovens em termos políticos e cívicos; aos professores já nada os espanta. Nem mesmo quando um jovem, com cinco anos completos de estudo de Inglês, não sabe dizer but!

E, já agora, aproveito para acrescentar: se as notas dos nossos alunos contam para a nossa avaliação, e uma vez que o Inglês nem sequer tem exame nacional, não irá acontecer que os piores professores de entre toda a classe não começarão a passar os alunos que não sabem dizer but e terão uma excelente avaliação, e os melhores, os que ainda sabem o que estão a fazer, serão sacrificados pelos seus princípios deontológicos?

A TV e os media nos tempos livres dos jovens

Público - 03 Mai 08

A TV e os media nos tempos livres dos jovens

Eduardo Cintra Torres

Os meus alunos de Análise e Crítica de Televisão da Universidade Católica aplicaram um inquérito junto de um milhar de jovens em finais de Março. Por coincidência, apresentei os primeiros resultados nas aulas dois dias antes de, a 25 de Abril, o Presidente da República ter divulgado um estudo (realizado, também por coincidência, pelo Centro de Estudos da mesma universidade) sobre os jovens e a política, assim introduzindo na agenda do debate público o tema do nível de conhecimento e envolvimento da juventude na política (esse estudo está em http://www.presidencia.pt/archive/doc/Os_jovens_e_a_politica.pdf).

O trabalho que realizei com os meus alunos é modesto; não podíamos recorrer a uma amostra representativa, fizemo-lo junto de uma amostra de conveniência. Não é, por isso, estatisticamente representativo do universo, mas, com os seus 1086 inquéritos a jovens dos 15 aos 34 anos, é expressivo dos hábitos e opiniões da juventude portuguesa sobre os media, em especial a TV. Neste artigo, apresento os resultados de algumas das 76 questões do inquérito, que permitem colocar a TV nos contextos em que deve estar: comparada com os outros media e comparada com outras ocupações dos tempos livres. Estes resultados ajudam à reflexão actual sobre os jovens, os media e, por extensão, a política.

Foi pedido aos inquiridos que indicassem quais os media mais importantes para si, em 1.º, 2.º e 3.º lugares (Quadro 1). A televisão é o media mais importante para os jovens, sendo mencionado por 76,8%, mas a Internet está-lhe no encalço, com 72,7%. O telemóvel foi referido por 39%, à frente dos jornais (30,7%) e rádio (27,0%). Os livros são um dos media mais importantes para 11,6% dos jovens, 6,6 vezes menos do que a TV, mas, mesmo assim, acima de revistas, iPod, cinema, DVD, consola e CD. Em conjunto, os media exclusivamente audiovisuais (TV, cinema, DVD, consola) duplicam em importância os media exclusivamente de leitura (livros, jornais, revistas).

Os resultados não permitem análises catastrofistas quanto à leitura, mas pode inquietar o lugar do livro na vida dos jovens, tendo em conta que a "leitura profunda", e não a de jornais, revistas ou blogues, é um traço distintivo do enraizamento da cultura e do processo educativo.

Colocámos uma pergunta visando relativizar o uso dos media na vida quotidiana, porque muitos inquéritos se limitam aos media, o que faz esquecer que há mais vida para além deles. As respostas permitem concluir que os jovens são ainda jovens como nos "good ol" times": quando lhes perguntámos como se entretêm nos tempos livres, sair com amigos surge em destaque (67,3%), bastante acima das opções seguintes, quase empatadas: navegar na Net (44,6%) e ver TV (41,8%). O facto de a Internet ultrapassar a TV parece indicar que esta vai sendo relegada para "pano de fundo" do quotidiano, como aconteceu à rádio nas últimas décadas. O Quadro 2 revela uma juventude variada nos seus interesses, havendo um quarto que escolheu passear (27,6%), ouvir música (26,1%), praticar desporto (25,8%) e ir ao cinema (23,7%).

No conjunto, os resultados mostram uma juventude que gosta - e precisa - de socializar com os seus pares, mas também com opções firmes no território individual, como navegar na Net, ver filmes no PC ou ler. Com 17,7%, a leitura surge em 8.º lugar na ocupação dos tempos livres, o que parece razoável, tendo em conta tratar-se de jovens, um grupo com necessidades individuais e sociais activas e fora de casa e tendo em conta as muitas outras solicitações contemporâneas, em especial as electrónicas.

Para compreender melhor a importância da TV na vida dos jovens, perguntámos-lhes quais os géneros televisivos mais importantes para si actualmente, em 1.º, 2.º e 3.º lugares (Quadro 3). Não surpreende que séries e filmes sejam os géneros preferidos (55,2% e 54,1%), comprovando a necessidade que os jovens têm da ficção para se divertirem e para estruturarem o seu conhecimento do mundo. Mas surpreende positivamente que, quase empatado com esses géneros, apareçam os noticiários (53,2%), muito acima do desporto, telenovelas, música e humor. Tal facto indica que, como se tem dito, os jovens adquirem boa parte da sua informação jornalística pela TV, mas também que colocam as notícias no topo das suas prioridades televisivas. Os noticiários foram, aliás, o género que os inquiridos mais escolheram em 1.º lugar.

Outras questões do inquérito permitem verificar que os jovens questionam a qualidade geral dos noticiários. Entre outras perguntas, quisemos saber se desconfiam da forma como as notícias são dadas: mais de metade desconfia (58,7%). Quisemos saber se acham os noticiários sensacionalistas: sete em dez acham (71,7%). Perguntámos se a maioria das notícias lhes interessa: cerca de metade disse que não lhes vê interesse (51,6%), o que pode significar que as vêem por pressão social ou por acharem necessário.

Este estar "de pé atrás" em relação aos noticiários não leva, porém, a maioria a preferir as notícias da rádio ou da imprensa (66% não as preferem), nem mesmo leva os jovens a usar o zapping na busca de informação alternativa: quando interrogados sobre se é preciso fazer zapping para se ficar bem informado, 61% concordou pouco ou nada com essa afirmação. Pode concluir-se que os jovens estão bastante ligados à televisão, usando-a para se informarem sem se lhe submeterem. A suposta influência da TV deve ser ainda mais relativizada quando sabemos, pela audimetria da Markdata, que os jovens dos 15-24 e dos 25-34 anos são os grupos que menos vêem TV. Os resultados são consistentes desde 2001, apenas com a novidade de os mais pequenos (4-14 anos) terem começado em 2006 a ver tão pouca TV como os dois grupos etários seguintes.

Descrição da AmostraAlunos da Universidade Católica aplicaram 1086 inquéritos na segunda quinzena de Março em locais da sua conveniência (casa, escola, cafés, recintos desportivos, transportes públicos, etc.), presencialmente mas também pela Internet, a indivíduos dos 15 aos 34 anos. Cerca de 70% dos questionários foram colocados a residentes em Lisboa, Cascais, Oeiras, Loures, Odivelas, Sintra, Almada, Montijo, Barreiro, e os restantes 30% a residentes em dezenas de concelhos de 13 distritos do Continente. Fiz a análise de dados com o software estatístico SP

quarta-feira, 4 de junho de 2008

lã pereias

Anónimo, 4 de Junho de 2008

Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.

Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?

E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os lesiades', q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.

Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???

O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar?