terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Na escola queremos, não queremos, queremos, não queremos… Pais!

José Rafael Marques da silva
Pai de três filhos

Na escola queremos, não queremos, queremos, não queremos… Pais!

Sou pai de três filhos e fui aluno da escola Poeta António Aleixo de Portimão. Saudosos tempos em que iniciava a minha descoberta do mundo, descobrindo a pouco e pouco com os meus professores e colegas, que valia a pena participar activamente na sociedade. Foram muitos os professores que me marcaram positivamente na vida, Prof. Rui de Matemática, Prof. Rosa de Biologia, a eles devo muitas das minhas actuais competências.

Desde muito novo percebi que a participação activa na sociedade me traria benefícios pessoais, como pessoa e como homem. Não houve nenhuma actividade onde estivesse envolvido, que não me tivesse ensinado algo, ajudando-me por isso a enfrentar as dificuldades que me foram surgindo ao longo da vida.

Como pai, educador e professor, sinto que a escola tem um papel importantíssimo na formação pessoal e académica dos seus alunos, é na escola que desenvolverão as competências mais importantes para a sua vida pessoal e para a vida da nação.

O motivo desta minha reflexão, no papel de pai, prende-se com a experiência, por mim adquirida, nas diversas associações de pais, das escolas onde os meus filhos têm passado.

A minha primeira lição nestas andanças, estava à vista, a participação activa dos pais na escola era ridícula.

Depois de reflectir um pouco sobre esta baixa participação, chego realmente à conclusão que esta sociedade actual é muito complexa, como tal, os pais têm muita dificuldade em participar activamente na escola. A gestão da casa, dos filhos e das suas múltiplas actividades é um trabalho diário hercúleo. A acrescentar a esta questão, ambos os pais têm a sua profissão, muitas das vezes exigente, o que torna na maioria das vezes as coisas ainda mais complicadas. Há por isso que encontrar novas formas de participação, nomeadamente a participação à distância utilizando para isso as novas tecnologias que hoje em dia nos facilitam muito a vida.

Por parte da escola verifiquei o seguinte, a escola está ávida da participação dos pais… até certos limites… Existem muitas actividades desenvolvidas na escola que beneficiariam muito se os pais participassem nas mesmas. Por outro lado, quando os pais tentam participar mais activamente na escola, é a própria escola que se fecha e muitas das vezes não reconhece aos pais a capacidade dessa participação.

Utilizando um termo bem alentejano… é à vontade, mas não à vontadinha.

Sinto que as escolas têm sofrido nos últimos tempos uma pressão enorme, quer por parte da tutela, quer por parte da opinião pública, por isso, a escola tornou-se desconfiada e à beira do isolamento. O corpo escola tornou-se desconfiado desta sociedade que a maltrata, por isso isola-se cada vez mais. No limite queremos que os pais participem, mas verdadeiramente lá dentro não queremos que eles participem, especialmente quando começam a fazer perguntas sobre a escola e sobre o seu modo de funcionamento!

Pessoalmente acho que muitos mais pais participariam na escola se sentissem que a sua participação é consequente, de outra forma a sensação de tempo perdido é esmagadora e para a próxima será menos um participar.

O isolamento da escola em relação aos pais participativos e responsáveis é a meu ver um grande tiro nos pés. Tenha a escola capacidade de estimular e encorajar estes pais.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Sobre a Gestão das Escolas


Sobre a Gestão das Escolas

Declaração de interesses: sou professor do ensino secundário há muito, costumo participar na escola e fora dela, sou pai e tenho 3 filhos e não acredito no discurso salazarista de que os portugueses não estão preparados para viver em democracia.

No projecto de Decreto-Lei sobre gestão das escolas prevê-se um Conselho Geral que, em princípio, tem amplos poderes. Digo, em princípio, porque não basta a enunciação desses poderes, esses só serão efectivos se os respectivos membros participarem, propondo, reflectindo, aprovando, fiscalizando … O que significa que é preciso trabalhar, dispor de tempo, dispor de si e das instituições que se representa, oferecer contrapartidas para o bem comum. De contrário, se não houver participação alguém irá utilizar o poder por “falta de comparência.:

Porque as escolas têm o seu dia a dia e não podem parar.

Quem participa? Professores, pessoal não docente, representantes da autarquia local, pais e encarregados de educação, alunos (ensino secundário), representantes da autarquia local e representantes da comunidade local.Vejamos algumas competências do Conselho Geral:

a) Eleger o respectivo presidente, de entre os representantes das autarquias, dos pais e encarregados de educação ou da comunidade local;

Exclui-se do cargo os professores, o que significa que esta função e este trabalho terá que ser exercido por um pai, um representante da autarquia …

b) Seleccionar e eleger o director. O director vê reforçados os seus poderes, é presidente do Conselho Pedagógico, nomeia os seus membros, é responsável pela gestão quotidiana, distribui o serviço docente, é avaliador de funcionários e professores etc. etc. Inclusivamente pode ser alguém que não conheça a escola. É avaliado pelo Conselho Geral (se este o fizer).

c) Aprovar o projecto educativo e acompanhar e avaliar a sua execução;

f) Apreciar os relatórios periódicos e o relatório final de execução do plano anual de actividades;

h) Definir as linhas orientadoras para a elaboração do orçamento;

i) Aprovar o relatório de contas de gerência;

Para definir, aprovar, apreciar, acompanhar, é preciso conhecer bem e discutir, estar atento e disponível.

O legislador definiu também que os professores eleitos devem estar em minoria. No regime transitório os membros serão sete representantes do pessoal docente; dois representantes do pessoal não docente; cinco representantes dos pais e encarregados de educação; três representantes da autarquia local; três representantes da comunidade local. Nas escolas com ensino secundário haverá um aluno e quatro encarregados de educação. Os representantes das instituições e actividades de carácter económico, social, cultural e científico são cooptados pelos restantes membros.

O modelo foi parcialmente copiado de outros países da União Europeia. Os países escandinavos, por exemplo, têm uma forte participação das instituições e comunidades locais. Mas há diferenças. As autarquias desses países tratam as escolas como suas e participam com dinheiro e recursos humanos e materiais e interessam-se pela sua gestão porque o investimento também é delas, assim como os benefícios esperados para as localidades ou país. Consideram que a Educação é responsabilidade de todos e que o desenvolvimento humano se faz com educação e instrução (veja-se os países com melhores índices de desenvolvimento humano). O estado limita-se a financiar parcialmente e supervisionar (a sério) sem impor comportamentos nem burocracias centralizadoras, extenuantes e inibidoras. As sociedades desses países têm um nível de instrução consolidado há muito, uma prática de respeito pelos indivíduos, pela lei e pelo assumir e exigir responsabilidades e aversão ao desperdício e demagogia. Não isentas de problemas e, referindo-nos aqui a práticas da maioria sociedade e não de alguns indivíduos, verifica-se também que os pais e a sociedade em geral responsabilizam os alunos pelo dever do trabalho. Basta verificar o número de horas em que os nossos jovens vêem televisão (o país onde se vê mais televisão na Europa) ou jogam em computadores ou outros aparelhos, as saídas nocturnas, a frequência de hipermercados, o número de livros lidos per capita etc. (há estudos sobre isso).
Até aqui tem havido uma Assembleia de Escola, onde participam um representante dos pais, da autarquia, funcionário, professores …O que se tem verificado na maioria das escolas é ou a falta de comparência de pais, a sua fraca disponibilidade ou até a quase ausência de representatividade. As autarquias, frequentemente enviam um funcionário sem poder de decisão e com o tempo contado. Sobram professores que, em algumas escolas (e ressalve-se que em muitas escolas as direcções incentivam a participação democrática) podem ser controlados, nomeadamente com a distribuição de serviço. Muitas assembleias têm-se revelado inoperantes.

E agora? Vamos esperar que a participação surja por decreto?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

De pequenino se torce o pepino?

Mário Lopes
(http://www.tintafresca.net/)


De pequenino se torce o pepino?

As virtudes da palmada, “na idade certa”, reúne, em Portugal, a quase unanimidade de opiniões favoráveis. A cultura popular não tem dúvidas quando estabelece que “é de pequenino que se torce o pepino”. Na verdade, quase todos os portugueses foram educados na virtude da palmada. Aqueles que ainda viveram na ditadura, conheceram bem as virtudes da palmatória na escola, por cada erro de Português ou de Contas. Em casa, as virtudes do poder paternal iam da correctiva palmada à punitiva sova de cinto. Afinal, lá diz o ditado que “quem dá o pão, dá a educação”, entendida esta como sinónimo de bordoada.

A cultura da palmada não se elimina por decreto nem sequer com revoluções. Ainda há não muito tempo, um juiz de um tribunal absolvia uma funcionária de uma instituição para deficientes por “educar” os jovens utentes a seu cargo à bofetada. “Nada que um bom pai de família não faça aos seus filhos”, citava a imprensa do acórdão judicial. A convicção de que se os pais não malharem nos filhos estes vão ser uns estroinas sem emenda está pois, ainda enraizada no imaginário popular. E nem os juizes, supostamente dotados de formação superior, escapam à crença, há muito desmentida por todos os estudos científicos sobre o assunto.

Nas escolas, o panorama não é melhor, apesar de há alguns anos ser estritamente proibido os professores baterem nos alunos. Em primeiro lugar, o facto de ser proibido não impediu os “correctivos” de continuarem a acontecer, contando com a condescendência de pais, professores e até dos próprios alunos, convencidos que só “levaram” para o seu bem. Em abono da verdade se diga que estas práticas vão, cada vez mais, rareando. Não tanto porque os adeptos do “estalo bem dado” tenham diminuído de forma significativa entre a classe docente, mas porque essa prática corre o risco de acabar em processo disciplinar para o professor. É caso para dizer que o estalo, hoje, não compensa.

Quase 30 anos depois da instauração do regime democrático, ainda ouvi relatos de jovens que me contaram que era prática a sua professora primária usar a régua e o estalo como práticas “pedagógicas”. Quem tem mais de 40 anos recorda-se ainda, que no tempo da ditadura, era frequente os pais pedirem aos professores para lhes “cascarem bem”. Aliás, ainda hoje continua a haver pais que pedem aos professores para baterem nos filhos se eles se “portarem mal”. Afinal, era assim no seu tempo e “não havia a pouca vergonha que há agora.” A única diferença de há 40 anos é que o pedido deixou de ser frequente. Na era da Globalização, era inevitável que a sociedade portuguesa começasse a mudar. Infelizmente, mudou ainda pouco.

Educar exige paciência, confiança e respeito. Três conceitos difíceis de ser conjugados, sobretudo, quando a experiência pessoal passou pela sua negação.

Ter paciência quando se trabalha muitas horas por dia, muitas vezes sem a devida compensação e reconhecimento e se gasta mais de um par de horas nos transportes públicos ou em filas de trânsito, chegando em casa cansado e enervado, não é fácil. Não se dá qualidade de vida aos filhos sem se apostar na qualidade de vida dos pais. Uma casa perto do emprego (ou vice-versa) e um emprego com garantia de reconhecimento e respeito representam uma boa ajuda para que os pais possam ter mais paciência com os filhos. É o que diz a teoria.

Por outro lado, uma criança ou um adolescente têm, naturalmente, uma visão limitada do mundo e agem de acordo com o entendimento que têm desse mundo. O erro mais comum dos adultos é querer julgar as crianças pelos padrões do mundo adulto. Deitar ao chão uma garrafa e manchar irremediavelmente um tapete, rasgar um livro de estimação e riscar a parede da sala são comportamentos perfeitamente admissíveis para um bebé de um ou dois anos. O erro não é da criança, mas do adulto que não tomou as devidas precauções de afastar os objectos ou não exerceu o dever de vigilância sobre a criança. Responsabilizar a criança por acções pelas quais não tem maturidade é uma tolice. Descarregar a frustração, à palmada, sobre uma criança, que deveria ser respeitada na sua integridade física, é uma cobardia.

Contudo, a falta de maturidade nalguns aspectos não significa que a criança seja imbecil e deva ser tratada como tal. A generalidade das crianças é inteligente e entende o que está ao alcance da sua faixa etária. Aqui entra o segundo erro dos adultos: o não confiarem nas capacidades das crianças e adolescentes para desempenharem determinadas tarefas. A partir dos três anos, por exemplo, uma criança já pode arrumar os seus brinquedos e deve ser estimulada a fazê-lo.

O que não deve acontecer é os pais continuarem a tratar as crianças mais velhas como se fossem bebés, não as responsabilizando por nada. À medida que vão crescendo devem ocupar-se de pequenas tarefas pedagógicas em casa, além das tarefas escolares, de forma a perceberem que a vida não é um cardápio de direitos, mas um conjunto de deveres e direitos, em que os primeiros precedem os segundos.

Por isso, a generosidade das chamadas “semanadas”, atribuídas aos adolescentes e, por vezes, aos pré-adolescentes deve depender do cumprimento prévio das suas obrigações. Fazer crer às crianças ou adolescentes de que as coisas na vida se conseguem ser esforço ou pela simples reivindicação é um erro que depois se repercutirá negativamente na vida adulta. Da mesma forma, a prestação voluntária de contas pelo trabalho escolar realizado deve ser incutida desde cedo às crianças.

Os pais devem confiar na capacidade dos filhos para desempenhar pequenas tarefas compatíveis com a sua idade. Depois de uma boa conversa, é só atribuir-lhes essas tarefas, de preferência com o seu acordo. Afinal, a vida é uma contratualização permanente e essa negociação deve ser treinada desde tenra idade. Se dermos um brinquedo ao bebé na hora da muda da fralda, ele fica quieto e permite que a fralda seja trocada sem choro. Isso já é contratualização.

Ainda relativamente à escola, importa não esquecer o papel motivador dos pais nas aprendizagens. Se os pais não se interessam pelo que a criança ou adolescente aprendem na escola, que direito têm depois de lhe cobrar resultados? Por outro lado, importa não esquecer que resultados escolares nem sempre são sinónimo de aprendizagens efectivas, que só o estudo regular garante. A maternidade ou paternidade é uma tarefa diária e permanente, não um passatempo para as horas vagas.

Por fim, the last but not the least, o respeito. Se crescemos numa cultura familiar onde a lei do mais forte imperou, é natural que a mesma lei continue a ser aplicada com a geração seguinte, a não ser que outra cultura tenha sido absorvida entretanto. “O inferno são os outros”, já dizia Jean-Paul Sartre. Convém notar que o respeito de que falo não é necessariamente coincidente com a noção de respeito da cultura popular. Há pais perfeitamente integrados profissional e socialmente que diariamente não primam pelo respeito aos filhos, a começar pelo tempo que diariamente (não) lhes dedicam.

Os mesmos pais que se apressam a proporcionar aos filhos consolas ou telemóveis topo de gama são os mesmos que mal os vêem à noite e não têm tempo para ir à escola falar com o director de turma. Infelizmente, este tipo de comportamento não merece nenhum tipo de censura social por parte da comunidade. Pelo contrário, lamentavelmente, ainda são vistos como pais-modelo que se sacrificam pelo bem-estar dos filhos...

Muitos destes pais são também os que não estabelecem regras nem limites em casa, algo incompreensivelmente aceite pela sociedade. Estes pais, que deveriam ser considerados maltratantes, pelo contrário, são vistos como liberais e “modernos”. Não haver horas para almoçar nem jantar, com cada elemento da família a comer a comida que lhe apetece, à hora e local que calha, causa danos irremediáveis a crianças e adolescentes. Os limites dão segurança aos jovens e a ausência de referências seguras deixa-os perdidos e, por vezes, a caminho da delinquência.

De igual modo, a ausência de critérios em casa abre caminho a decisões contraditórias sobre o mesmo assunto e estimula os jovens à manipulação e à chantagem. Hoje o Alberto pode ir brincar para casa do vizinho, amanhã o irmão Pedro já não pode. Esta semana leva 20 euros de “semanada”, na próxima leva só 10. Em casa, ninguém percebeu porque foi tomada uma decisão ou outra, ao adulto apenas lhe “deu na telha” decidir assim. Noutra ocasião, o filho quer ir brincar para a rua e o pai não deixa. Depois de muito berrar, o pai cede, já com os ouvidos cheios de tanta gritaria, dando o dito por não dito e pondo em causa a sua própria autoridade. O resultado é que a criança passa a adoptar o choro e a gritaria como arma eficaz de convencimento dos pais. A cena pode ser vista num qualquer supermercado perto de si.

Mais uma vez se comprova que a falta de critérios e limites contribui para produzir crianças e adolescentes perturbados. Se os adultos precisam de saber as regras de convivência em sociedade para viverem em paz, crianças e adolescentes necessitam ainda mais de conhecer as regras vigentes em casa. O resultado deste caos familiar só pode servir para produzir filhos agressivos, simulados e mal-educados. Contudo, será que estes pais “modernos” deveriam ter dado a estes filhos a tal “palmada no tempo certo"?.

A resposta só pode ser negativa. A autoridade não se impõe à palmada, pelo contrário, se um pai é obrigado a usar a violência sobre os filhos para os educar, significa que falhou redondamente na sua educação. Não teve paciência, não confiou e/ou não respeitou os filhos. Resta a pancada, em desespero de causa, provocando ainda mais perturbação e sofrimento nos filhos. Não devemos confundir firmeza com violência, não só são conceitos diferentes como antagónicos. O primeiro visa condicionar o comportamento pela razão, o segundo pelo medo.

A firmeza deve ser exercida pelos pais desde a mais tenra idade, a violência deve ser banida (já o é na lei) do seio familiar, sendo uma prova de incompetência parental. Alguns pais admitem que já não sabem o que fazer com os filhos para os controlar. Ora, um pai tem muitos instrumentos para condicionar o comportamento dos filhos, da “semanada”, às autorizações para sair de casa, ver TV, etc, etc.. E essa autoridade deve ser levada a sério desde muito cedo. Se um pai vacila, se diz uma coisa hoje e o contrário amanhã, se cede à primeira insistência dos filhos, perde toda a autoridade e o controlo da vida familiar. As prendas generosas dadas aos filhos, tentando assim aliviar o sentimento de culpa pela ausência parental, são apenas um sinal de fraqueza e de incompetência. E os filhos não deixam de perceber isso.

Ser pai não é fácil, reconheçamos. Por isso mesmo, defendo que os pais deveriam frequentar cursos de habilitação parental em três momentos da vida dos filhos: antes destes nascerem, antes de ingressarem no ensino básico e andes de atingirem a adolescência. Se todos precisamos de Carta de Condução para dirigir um automóvel, porque não deveremos estar habilitados para dirigir o destino de uma criança? Por outro lado, se a transmissão de conhecimentos de pais para filhos é útil, muitas vezes contribui também para a manutenção de noções erradas e nocivas para o desenvolvimento harmonioso da criança.

São inúmeros os riscos que as crianças indefesas correm, desde a sua concepção. Muitas começam ser maltratadas ainda dentro do ventre materno pelo fumo do tabaco das mães fumadoras. Outras vezes, ingerem passivamente o fumo do tabaco, em boa hora banido, desde 1 de Janeiro, dos locais públicos fechados. Depois, são as suas manifestações de vontade desrespeitadas, com o seu choro a ser levianamente confundido com birras e manhas. Registe-se as ausências dos pais e a permanência cada vez mais longa das crianças em infantários e escolas massificadoras. E o que dizer das crianças institucionalizadas e das crianças com famílias desestruturadas? Há um longo caminho ainda a percorrer para que as crianças tenham o estatuto que verdadeiramente merecem.

A Educação, a bateria e a especialização

Mário Lino
A Educação, a bateria e a especialização

Ao contrário da Economia, da Justiça ou da Saúde, em que são habitualmente chamados a pronunciar-se os profissionais da área respectiva, na Educação todos se sentem habilitados a dar palpites sobre o sector e sobre as reformas que são ou não necessárias. Cada vez mais, o estatuto da Educação se assemelha ao do futebol: como toda gente deu pontapés na bola na infância e na adolescência, acha que domina a arte de colocar a bola no fundo da baliza. Na Educação, também todos passámos pelos bancos da escola e/ou somos pais e, por isso, nos sentimos habilitados a dar palpites sobre Educação e a fazer os mais definitivos diagnósticos sobre o sector.

Basta ligar a televisão ou um qualquer jornal, para vermos políticos, economistas, psicólogos, psiquiatras, advogados, jornalistas ou fabricantes de garrafas a pronunciarem-se de cátedra sobre o assunto. E aqui reside o principal erro que se comete em Portugal em matéria de Educação. Há a ideia generalizada de que este não é uma matéria que exija especialização. Contudo, qualquer professor consciente sabe que, pelo contrário, é um sector que exige uma enorme especialização e experiência.

Há muitos anos atrás, quando um grupo de adolescentes queria formar uma banda de garagem, quem ficava a tocar bateria era quem não sabia tocar nenhum outro instrumento. Hoje a bateria é motivo de teses de mestrado, mas numa época de pouco conhecimento considerava-se que qualquer pessoa era capaz de dar umas batidas nos pratos. Na política portuguesa também é assim: para ministro da Justiça escolhe-se um advogado ou um juiz, para a pasta da Economia escolhe-se um economista, para a pasta da Saúde vai um médico ou professor de Saúde Pública. Para a Educação, vai qualquer um. Não é necessário nem especialização nem o conhecimento do sector. Extraordinário!

Ninguém se lembraria de escolher um veterinário para ministro das Finanças, mas toda a gente achou natural que a economista Manuela Ferreira Leite ascendesse à pasta da Educação. Também toda a gente achou normal que os engenheiros mecânicos Couto dos Santos e Marçal Grilo (este com algum contacto com o sector) passassem a inquilinos do prédio da 5 de Outubro.
Ou que David Justino, autarca e professor do ensino superior, ocupasse as mesmas funções.

Nada mais pacífico, por isso, que Santana Lopes tivesse convidado uma especialista de telecomunicações para o cargo, com os resultados trágicos que se conhecem. Posto isto, quem se admiraria ao ver José Sócrates convidar uma professora de Sociologia, sem qualquer currículo conhecido na área do ensino básico ou secundário para o cargo? Aliás, parece que todas as profissões dão excelentes currículos para ministro da Educação, excepto uma: a de professor dos ciclos de ensino respectivos!

Quando foi conhecido o nome de Maria de Lurdes Rodrigues para a pasta da Educação, todos se interrogaram quem seria a nova titular, uma vez que ninguém a conhecia. Além de algumas obras publicadas, que nada tinham a ver com o ensino secundário, sabia-se que era presidente do Observatório das Ciências em Portugal. Contudo, logo os jornalistas descobriram uma "qualidade" na nova ministra que a qualificava para o cargo: era conhecido o seu mau feitio. Não demorou muito a que os portugueses demorassem a descobrir que o critério "mau feitio" era extensivo aos seus secretários de Estado. Um critério, no mínimo estranho, numa pasta que envolve milhões de pessoas e em que a capacidade de comunicação deveria ser prioritária.

Existem quase 150 mil professores em Portugal a trabalhar no ensino básico e secundário, mas, ao que parece, nenhum sabe suficientemente de educação para desempenhar o cargo. É caso para perguntar o que fazem estes milhares de professores durante dias, meses, anos ou décadas de profissão. Se dia após dia, não se estão a especializar em Educação, então o que estão a fazer?

Aprender a fazer horários, conciliando uma complexidade de factores, não é especialização? Dirigir uma escola não é especialização? Gerir uma turma de alunos desestruturados não é especialização? Contudo, parece que em Portugal, todo este conhecimento fundamental não habilita nenhum dos profissionais de Educação a dirigir o ministério respectivo. Extraordinário!

Ao invés, parece que o que habilita alguém para o cargo é nunca ter dado uma aula na vida no sector que vai dirigir! Ou que não faça a mínima ideia do que sejam as dinâmicas dentro de uma sala de aula. Não será esta sistemática ostracização dos professores, afinal, uma falta de consideração da classe política para com os profissionais de Educação deste País?

Como se pode conceber que conhecer o sistema por dentro nada valha para a classe política? Como se admite que, se não me falha a memória, nem um único professor tenha sido convidado para ocupar o cargo de ministro ou de secretário de Estado neste País nas últimas décadas? Será que aos professores do ensino básico e secundário está reservado o estatuto de menoridade mental e profissional, apesar das provas de bom senso que revelam todos os dias?

Com o devido respeito, enquanto cidadão, considero que os professores têm cumprido incomparavelmente melhor as suas funções do que a classe política. Se alguma dúvida houvesse, bastaria ver o estado em que encontra este País. Por outro lado, convém lembrar que a responsabilidade das políticas educativas erráticas e inconsequentes é da classe política, não dos docentes, que apenas as executam

As estatísticas e o sucesso educativo

Os portugueses têm assistido, com alguma perplexidade, às queixas da senhora ministra da Educação sobre as taxas de insucesso e abandono escolar. Afinal, a um ministro da República não se pede que se queixe, mas que resolva os problemas. Para isso tem, primeiro, de conhecer a realidade. Contudo, os argumentos que a senhora ministra e os seus secretários de Estado têm trazido para a comunicação social mais não revelam que um profundo desconhecimento do trabalho produzido nas escolas.

As questões são simples e quem está no terreno conhece as soluções há muitos anos. O entendimento entre os professores não é difícil e, regra geral há consenso sobre a forma de resolver os problemas. Aliás, os profissionais, seja qual for o ramo de actividade, conhecem sempre muito bem os problemas da sua área de actuação e, por isso, as soluções também são geralmente consensuais. As dificuldades surgem quando aparecem políticos, que não conhecem a verdadeira dimensão dos problemas, a Governar sectores que não dominam. O resultado traduz-se invariavelmente em contestação dos profissionais em causa e medidas avulsas e inconsequentes.

Há anos que os professores deitam as mãos à cabeça com as medidas apresentadas pelos sucessivos governos, cada uma pior que a outra. Com a sua proverbial paciência, professores e conselhos executivos tentam implementar o que, muitas vezes, não tem qualquer viabilidade ou aderência à realidade. Se a autonomia das escolas lhes permitisse rejeitar muitas das directivas absurdas que lhes chegam anualmente, por certo, muito dinheiro pouparia o País e muita eficácia ganhariam as escolas.

Mas vamos às queixas da senhora ministra. Para responder a estes questões, não precisamos de comissões de sábios ou de espertos (tradução livre do Inglês), qualquer professor esclarecido conhece as soluções. Porque é que os alunos não completam o 12º ano? A resposta é curta e simples: o elevado grau de abstracção dos actuais programas do 12º ano não é compatível com o perfil de uma parte significativa da população escolar.

O problema não está nos alunos nem nos professores nem nos pais nem sequer no sistema de ensino, mas nos programas, que foram criados com a função de preencher anos pré-universitários. Ora, quem não tem perfil universitário - e são muitos - também não tem perfil para frequentar o actual 12º ano. Se o País quer que a generalidade dos alunos completem o 12º ano tem de lhes propor outras competências, de menor abstracção e complexidade, seja através de cursos profissionais ou outros. E ponto final.

Volto à questão da necessidade de especialização da escola. O Ministério da Educação olha para a população escolar como uma massa uniforme e, por norma, propõe soluções universais para problemas bem distintos. Erro crasso. Já dizia, Descartes que os problemas complexos se devem decompor em problemas simples, para que se possam resolver.

Ora, com a democratização do ensino, toda a população jovem passou a ter acesso à escola. E com ela chegaram novos problemas às escolas que exigiriam soluções diferenciadas. Contudo, o Ministério da Educação continua a comportar-se como se a população escolar tivesse a mesma homogeneidade de há 30 anos. Não tem. A população escolar de hoje é altamente heterogénea,
uma consequência da universalidade do ensino.

Os três nós górdios do ensino secundário

1) O atraso mental ligeiro

Numa linguagem simplificada, eu diria que há três tipos de novos utentes que acederam à escola nas últimas duas ou três décadas e que têm sido ignorados pela classe política. Uma dessas classes, de que nunca se fala, é a população escolar menos favorecida intelectualmente. Não há que ter pudor ou vergonha em falar no assunto, eles existem, há que assumir essa realidade. Há 30 anos, não passavam do 1º ciclo, hoje frequentam o terceiro ciclo e pretende-se que cumpram no futuro 12 anos de escolaridade.

A população escolar não deve ser dividida numa grande maioria, inteligente, e numa pequena minoria, deficiente. Não. Há uma fatia intermédia da população escolar que, não sendo considerada deficiente, possui, no entanto, o que definiria, ainda que sem rigor científico, como grau de atraso mental ligeiro. Todavia, não é politicamente correcto admitir que existem alunos intelectualmente limitados, todos preferem assobiar para o lado e fingir que o problema
não existe.

Por certo, até hoje nenhum ministro da Educação se lembrou de pedir o perfil da população escolar em termos de Quociente de Inteligência (QI). Seria um exercício interessante confrontar esses resultados com as exigências dos programas escolares. Ora, o Ministério da Educação continua a exigir a estes jovens menos dotados intelectualmente aquilo a que eles não conseguem corresponder. Numa estimativa meramente empírica, baseado na minha própria experiência de professor, diria que esta população não andará longe dos 10%, o que, concordemos, é um número muito significativo.

Na minha opinião, há que olhar para este problema de forma integrada pois os cursos profissionais apenas o resolverá em parte. Não esqueçamos que, num mundo globalizado, cada vez se exige mais dos profissionais, seja qual for a área. E hoje, exige-se muito a um electricista, um jardineiro ou um mecânico, bem mais do que estes alunos poderão eventualmente dar.

Por isso, mesmo depois de formados, dificilmente estes jovens poderão competir de igual para igual no mercado de trabalho. As limitações intelectuais não desaparecem só porque frequentaram cursos de formação e, por isso, seria importante que o Governo criasse bolsas de trabalho protegidas, quer no Estado quer no sector privado, através de protocolos com as empresas. Não entendo, por exemplo, porque é que pessoas com QI médio ocupam postos de trabalho no sector da limpeza, quando este, por ser menos exigente, deveria ser um sector de mercado de trabalho protegido dirigido para pessoas de QI baixo, que dificilmente conseguirão emprego estável noutras áreas. O que a sociedade não pode é marginalizar estes jovens nem deixar de lhes oferecer uma colocação profissional compatível com as suas limitações intelectuais. E ao ignorar as suas limitações, o Estado está a empurrar involuntariamente estes jovens para a marginalidade social.

2- a) O mundo das famílias desestruturadas

O segundo tipo de utente que tem acedido à escola nas últimas décadas é o das chamadas famílias desestruturadas. Antes de 25 de Abril de 1974, estes jovens eram perseguidos e marginalizados pelos próprios professores, seguindo as directrizes e as práticas do Ministério da Educação. Se não eram expulsos, eram tão maltratados que acabavam por abandonar as escolas na primeira oportunidade.

Contudo, hoje fazem parte da população escolar e, reconheça-se, de pleno direito. No entanto, mais uma vez, o Ministério da Educação não os reconhece como segmento de população escolar diferenciado e remete a solução dos problemas que causam no normal desenrolar da vida escolar para as escolas, sem os correspondentes meios.

Aqui, as soluções para a resolução deste problema dividem-se. A Alemanha decidiu criar escolas de nível regular, médio e máximo e dar aos pais a opção de escolherem a escola dos seus filhos. A formação dos professores, ao que me informaram, também é diferenciada: os das escolas regulares têm competências reforçadas ao nível do comportamento e integração social e os das outras escolas ao nível científico. Confesso que me inclino, cada vez mais, para esta opção porque é a que mais atenção dá aos diversos públicos-alvo.

A outra opção passa por manter a actual heterogeneidade das turmas. Contudo, também aqui há limites inultrapassáveis, como o número de alunos problemáticos a nível de comportamento por turma. Por norma, um professor consegue gerir satisfatoriamente uma turma com um ou dois alunos problemáticos, mas jamais conseguirá gerir com sucesso turmas com 10 ou 15 alunos problemáticos. Neste caso, o rendimento escolar fica irremediavelmente comprometido. Bem pode o professor "fazer o pino", pois em Educação não há milagres.

Ora, hoje em dia o Ministério da Educação impõe que as turmas só possam ser desdobradas se tiverem mais de 30 alunos, exceptuando se tiverem alunos com algum tipo de deficiência. Ora, os alunos desestruturados não são deficientes e, por isso, hoje há turmas com 10 ou 15 alunos problemáticos integrados em turmas de 30 alunos. O resultado só pode ser trágico, quer para os alunos problemáticos, que não têm a atenção que lhes é devida, quer para os restantes, que não conseguem aprender o que deviam. Obviamente, a culpa aqui não é dos professores, mas das regras absurdas impostas pelo Ministério da Educação.

Ainda nesta opção, é absolutamente indispensável que a indisciplina orgânica não se torne norma na aula. A sala de aula é um local de trabalho, não o prolongamento do recreio. Contudo, cada vez é mais difícil distinguir o recreio da sala de aula. Ou é o auscultador que o aluno coloca mais ou menos discretamente no ouvido, ou é o telemóvel, ou o caderno e o livro que não são
trazidos para a aula, ou a conversa irreverente com o parceiro do lado enquanto o professor tenta explicar a matéria, tudo isto perturba enormemente uma aula e reduz drasticamente a aprendizagem.

Ora, esta indisciplina orgânica deve ser muito mais penalizadora para o aluno do que é actualmente. A solução, do meu ponto de vista, passa por criar um núcleo disciplinar dentro de cada escola. Se um aluno desrespeita sistematicamente as regras de comportamento na sala de aula, deve ser obrigado a sair, mas não para regressar 10 ou 15 minutos depois à aula seguinte, continuando a ter o mesmo comportamento. Alguém que é expulso de uma aula por mau comportamento deveria ficar até ao final do horário escolar numa sala disciplinar, acompanhado por dois professores, com o perfil adequado para o efeito. Isto já é feito, com êxito, em escolas americanas.

Outra medida poderia passar pela mudança compulsiva de turma ou até, de estabelecimento de ensino, bastando para tal uma avaliação negativa do comportamento do aluno, devidamente fundamentada, por parte do conselho de turma. Só assim, o combate à indisciplina será suficientemente dissuasor. O actual modelo do processo disciplinar, burocrático, interminável e permissivo, não tem qualquer eficácia e deveria ser reservado apenas a casos de violência, física ou verbal. Muitas vezes, quando chega ao fim o processo disciplinar, já acabou o ano lectivo. E, na maior parte das vezes, a pena é tão simbólica que põe o sistema a ridículo.

2-b) A violência na escola

Ainda dentro do capítulo das famílias desestruturadas, é preciso considerar o caso-limite da violência nas escolas, que afecta, sobretudo, a periferia das grandes cidades. O Ministério da Educação não pode remeter o problema para as escolas, lavando daí as suas mãos como Pilatos. Pior ainda quando decide acusar de incompetência os professores e as escolas em dificuldade, com o extraordinário argumento de que há escolas que têm êxito em situações idênticas.

Aliás, nos célebres vídeos da RTP, a estratégia do secretário de Estado passou (surpresa!) por tentar culpabilizar os professores em causa pela violência nas aulas, quando se percebe claramente que há naqueles alunos uma agressividade perfeitamente anormal que exigiria um apoio especializado acrescido àquelas escolas. Aliás, esta é a estratégia recorrente dos responsáveis do Ministério da Educação: quando algo não está bem, a culpa é invariavelmente
dos professores. É a visão simplex da Educação.

No caso dos vídeos na RTP, seria previsível que os responsáveis do ME tomassem medidas para resolver os problemas de violência nas escolas. Todavia, logo surgiu a notícia de que o Ministério iria tentar acusar a direcção das escolas de violação do direito de imagem, apesar de ninguém ser identificado na reportagem. Fantástico!

3- O problema da motivação

Um terceiro grupo problemático é o dos alunos que, devido a problemas de motivação ou bloqueios emocionais não conseguem ter um rendimento escolar normal. Muitas vezes, falta de motivação e de resultados não implica mau comportamento nas aulas. Muitos factores podem estar associados a estes problemas. Um deles é conhecido como hiperactividade ou défice de atenção. Segundo o pedopsiquiatra Nuno Lobo Antunes, 7,5% da população escolar tem este problema. Numa escola de 1300 alunos, 100 alunos sofrerão assim deste problema. Uma multidão.

E qual é a resposta do Ministério da Educação para este problema, que exige tratamento médico especializado? A informação que tenho é que a única consulta do Estado na região, localizada no Hospital de Leiria, tem uma lista de espera de 7 meses... No sector privado, uma consulta da especialidade pode chegar aos 100 euros, bem longe do alcance da maioria dos pais.

Diante deste cenário, que razão tem a senhora ministra da Educação para se queixar dos maus resultados escolares dos alunos? Além destes, existem muitos outros problemas de saúde que explicam o baixo rendimento dos alunos, como dislexia, problemas de visão, audição, etc., muito mais frequentes do que se pode imaginar e que dificilmente os professores conseguem detectar.

Ainda relativamente à motivação, que soluções propõe o Ministério da Educação para os inúmeros casos de falta de acompanhamento dos alunos por parte dos pais? É um erro de palmatória pensar que os professores podem substituir os pais no acompanhamento parental. Com 5 ou 6 turmas de 25 a 30 alunos e horários rígidos, perfazendo 100 a 150 alunos a seu cargo diariamente, os professores não têm nem tempo nem vocação para fazer esse acompanhamento. O resto não passa de fantasias delirantes. Ponto final.

A "solução" do Ministério da Educação de alargar os horários escolares para permitir o melhor acompanhamento desses alunos dificilmente terá qualquer eficácia. Primeiro, porque não é em 45 minutos ou mesmo 90 minutos que se consegue dar o mínimo de acompanhamento parental a grupos de 5, 10 ou 15 alunos. Em segundo lugar, mais horas num horário escolar já sobrecarregado soa como um castigo extra para os alunos, que, ao fim do dia, já estão cansados e stressados e só querem ir para casa descansar.

Outra medida inconsequente são as chamadas aulas de substituição. Se elas são compreensíveis no 1º ou 2º ciclo, dada a tenra idade dos alunos, que exige uma supervisão apertada, o mesmo não acontece no 3º ciclo e no ensino secundário, onde os alunos já dispõem de razoável autonomia. O argumento da senhora ministra de que se os alunos não estiverem na sala de aula andam pelos cafés a embebedarem-se não colhe.

Em primeiro lugar, se as escolas não estão vedadas, é obrigação do Ministério da Educação fazê-lo. Os alunos devem permanecer no espaço escolar durante o tempo do horário escolar. E a esmagadora maioria dos alunos portugueses não são bêbados nem toxicodependentes, são jovens que precisam de brincar e de socializar, coisa que sempre fizeram de forma saudável. Com esta medida, a senhora ministra impede os alunos de o fazer no recreio. A consequência é que transformam o espaço da sala de aula, que deveria ser sagrado e reservado ao estudo, no recreio. Os resultados desta medida em termos de cultura escolar são, obviamente, catastróficos.

As medidas piedosas e populistas do Ministério da Educação, que podem parecer óptimas para pais e leigos na matéria, traduzem-se afinal em mais custos para os contribuintes e resultados nulos. Este é mais um exemplo de que a Educação precisa de especialização e que os especialistas deste sector não são gestores, sociólogos ou engenheiros mecânicos, mas professores. E, já agora, qual é a penalização (ou incentivo) para os pais que nem sequer vão à escola quando são solicitados? Será que o sucesso educativo não passa pela responsabilização de todos os intervenientes no processo educativo? Muito francamente, não me parece sério um discurso que só procura responsabilizar uma das partes e se demite totalmente de responsabilizar os outros intervenientes no processo. Ou será que o Ministério da Educação optou por afrontar apenas os professores por serem apenas 150 mil e não tem coragem de responsabilizar pais e alunos, por estes serem 3 ou 4 milhões?

A avaliação dos professores

a) Os "maus professores"

Em quase 20 anos de ensino, contam-se pelos dedos de uma mão os comportamentos não responsáveis de professores que observei. Por isso, é com perplexidade que ouço falar da necessidade de punir os "maus professores". De que País estamos a falar: da Somália, do Sudão ou do Burkina Faso?! Com certeza os professores são humanos, terão seguramente personalidades muito diferentes, qualidades e defeitos, mas, se há classe que me merece confiança, é a dos professores.

De resto, numa profissão sujeito ao escrutínio de tanta gente, dificilmente algum professor não cumprirá as suas obrigações. Qualquer aluno, encarregado de educação ou professor se pode queixar ao conselho executivo da escola e todas as queixas são tidas em conta, consideradas e dado o devido encaminhamento. Os casos poderão depois ser passados à inspecção que os analisa a pente fino e, mesmo assim, raras são as condenações de professores.

Só quem não percebe nada do que são as escolas portuguesas - e muitos são, incluindo a maioria dos jornalistas - consegue acreditar na fantástica tese de que o problema do ensino secundário reside na qualidade dos professores. Lembro que a quase totalidade dos professores são pessoas formadas e, como já sublinhei, têm de dar diariamente provas de bom senso. Na verdade, o que falta nas escolas são regras eficazes a todos os níveis e flexibilidade na gestão.

Por isso, é lamentável que a campanha de difamação dos professores parta precisamente dos responsáveis do Ministério da Educação. E mais lamentável ainda é que num dia lancem lama sobre a classe, para logo no dia seguinte virem dizer que não era bem assim, e que a culpa é do jornalista que deu a notícia. A senhora ministra acusou os professores de só se preocuparem com as boas turmas e de as colocarem de manhã para os funcionários da escola colocarem lá os seus filhos. Ora, isto é uma acusação claríssima de corrupção.

Em quase 20 anos de profissão, nunca observei tal prática e, por isso, considero que a senhora ministra difamou os professores. Em primeiro lugar, com a natalidade em queda, não me parece que os professores tenham assim tantos filhos e menos ainda na escola onde leccionam. Da minha experiência, cada escola talvez tenha em média dois ou três filhos de professores a estudar na mesma escola enquanto há 20 ou 30 turmas por escola. Além disso, muitos são os professores que têm os filhos a estudar noutras escolas, públicas ou privadas.

Por aqui se vê que essa acusação não tem qualquer base de sustentação. No entanto, a ser verdade esta prática nalguma escola, a obrigação da senhora ministra era mandar a Inspecção averiguar, não lançar lama contra uma classe profissional inteira.

Por outro lado, a comparação dos professores com os médicos é, uma vez mais, reveladora do desconhecimento que a senhora ministra tem da profissão docente no ensino secundário. A cura da doença dos pacientes só depende do médico, mas a aprendizagem dos alunos não depende só do professor. Só por desonestidade intelectual e/ou leviandade se podem comparar situações tão distintas.

b) A avaliação fantasma dos pais

Os alunos não aprendem por um conjunto variado de factores, que já atrás referi, e dos quais o Ministério da Educação é o principal responsável. Os professores fazem o melhor que podem e sabem. De resto, a intenção persecutória dos responsáveis do Ministério da Educação contra os professores e as suspeitas públicas quanto ao seu profissionalismo são claras. A última afronta é a proposta de Estatuto da Carreira Docente.

Com efeito, a proposta de avaliação dos professores por parte dos encarregados de educação parte da suspeita não confessada de que os professores não são responsáveis. Assim, os pais (supostamente cidadãos responsáveis) controlariam os professores (supostamente profissionais irresponsáveis). A medida, tão populista como perversa, mereceu a reprovação da maior parte dos partidos, do Bloco de Esquerda ao CDS, e até da generalidade dos comentadores, sempre tão benevolentes com os actuais responsáveis do 5 de Outubro.

A proposta não sobrevive ao mais rudimentar escrutínio. Primeiro, como podem os pais avaliar professores, se nem sequer os conhecem? Por outro lado, se não os conhecem, as informações em que se baseiam são transmitidas pelos filhos, de 10, 13 ou 16 anos! Ora, que maturidade tem uma criança ou adolescente para avaliar um professor?

Por outro lado, é preciso não esquecer que entre professor e aluno também existe uma relação de poder. E deixar na mão de um adolescente o poder de avaliar o educador é uma total perversão. O poder do educador não pode ser diminuído pelo receio de uma revanche do aluno. No limite, uma turma de marginais terá o professor na mão, porque se este os afrontar leva com uma avaliação negativa e o seu salário será diminuído. Em termos de relação de poder, é como se um juiz passasse a ser avaliado pelas pessoas que tem de julgar! Um completo absurdo.

E nem a tentativa da senhora ministra de tentar fugir à questão, dizendo que este é apenas um acto de avaliação, entre muitos outros, é minimamente admissível. Não é por ter menos peso que a proposta se torna mais séria ou aceitável! Além disso, um trabalhador não pode ver o seu desempenho avaliado por factores subjectivos, de que nunca poderá recorrer, deve ser avaliado em função de critérios objectivos. A avaliação profissional é uma coisa séria, não pode ser uma lotaria.

A insinuação de que os professores não querem ser avaliados é outra peça na campanha contra a classe que circula pelos média. A verdade é que os professores já eram avaliados até aqui, dependendo a aprovação da frequência de acções de formação e do cumprimento das tarefas atribuídas. É certo que o processo de avaliação não era muito exigente, mas a responsabilidade é, naturalmente, dos responsáveis do Ministério da Educação que aprovaram essa legislação, não dos professores, que se limitaram a cumprir o estipulado.

c) O mito da falta de assiduidade

Faço aqui um parêntesis para abordar a questão da assiduidade, que tem sido alvo de uma campanha demagógica contra a classe docente. Em primeiro lugar, o ensino é uma profissão maioritariamente de mulheres. Ora, tradicionalmente, quem cuida dos filhos quando estes estão doentes são as mulheres, sem falar que mulheres engravidam e, por isso, também têm por vezes de faltar por razões de saúde. Por isso, é natural que a assiduidade seja menor entre os professores que noutras profissões. Qual é a alternativa? Querem que as professoras deixem os seus filhos ao abandono?

Por outro lado, a falta de um professor tem uma repercussão social ampliada. Quando um funcionário falta numa repartição o utente raramente dá por isso. No caso dos professores, quando um deles falta um único dia, há 150 alunos que dão pela sua falta e que contam a 300 pais. No total, a falta de um único professor é notada por quase meio milhar de pessoas.

Por outro lado, não entendo porque os professores não podem repor as aulas em que têm de faltar. Bastaria que, para tal, fosse marcado no horário escolar uma mancha para esse efeito. Aqui está um mecanismo de gestão que, incompreensivelmente, não é utilizado e que poderia minorar bastante os efeitos das ausências pontuais dos professores.

Por outro lado, é preciso entender que os professores têm horários extremamente rígidos e a um simples atraso de 5 minutos, devido a trânsito intenso ou outro motivo imprevisto, pode corresponder uma falta de um dia inteiro, se essa for a única aula do dia, ou, no mínimo, a ¼ de dia de falta. Quantos profissionais deste País têm penalizações tão gravosas, embora compreensíveis, por atrasos de 5 minutos?

Além disso, é uma profissão muito exigente em termos de cansaço e desgaste psíquico. Um dia inteiro a lidar com adolescentes irreverentes é uma tarefa duríssima, sobretudo, quando se tem de lidar com turmas problemáticas, sem falar no trabalho que os professores levam para casa. Por isso, por vezes, quando um professor está "de rastos", nada mais lhe resta que parar um dia,
mesmo perdendo um dia de férias, para recuperar energias ou até a sua sanidade mental.

Seguramente, não é por causa da assiduidade dos professores que o ensino está mal. A única excepção sucede quando um professor está de atestado médico menos de um mês, uma vez que a legislação só permite a substituição se a ausência for igual ou superior a um mês. O incumprimento do programa agrava-se ainda mais quando a instabilidade da saúde professor o leva a pôr sucessivos atestados médicos de curta duração.

São casos raros, mas acontecem e penalizam bastante os alunos. No entanto, cabe ao Ministério da Educação modificar essa legislação e encontrar soluções mais criativas para que os alunos não fiquem sem aulas tanto tempo.

d) Avaliação sim, mas objectiva

De qualquer forma, quem não deve não teme e os professores não têm qualquer problema em ser avaliados, desde que os critérios sejam objectivos e estejam relacionados directamente com o seu trabalho. Não é aceitável que a sua avaliação dependa dos resultados dos alunos, pela simples razão de que os resultados dependem de muitos outros factores, além do trabalho do professor. Por exemplo, um professor com turmas problemáticas nunca pode ter os mesmos resultados que um professor com bons alunos. Por outro lado, isso seria mais um convite ao facilitismo porque, naturalmente, pressionaria os professores a inflacionar as classificações dos alunos.

Por outro lado, é clara a intenção deste Governo ao fixar numerus clausus no acesso ao topo da carreira e não querer pagar aos professores, independentemente do seu mérito ou competência. Ora, como quer o Governo atrair para a carreira bons profissionais se não lhes paga em consonância? A proletarização da classe docente é uma realidade típica de países de Terceiro Mundo, não de países civilizados. E mal vai Portugal se tenciona continuar a desvalorizar a profissão de professor.

Parafraseando a magnífica frase de Medina Carreira há alguns dias na RTP, também "eu gosto dos determinados, mas é quando acertam." Como já aqui demonstrei, a nomeação desta equipa da Educação é um monumental erro de casting e o País vai pagar caro a política populista e voluntarista que está a ser seguida neste sector. Em vez de mobilizar energias, Maria de Lurdes
Rodrigues mais não faz do que incendiar o País e comprar guerras inúteis e despropositadas com os professores. O descrédito da actual equipa da Educação é total nas escolas portuguesas e, por mais que isto custe a José Sócrates, tal não se deve a questões salariais, mas ao facto da sua competência não ser reconhecida. Não se governa um País com base em estatísticas, sobretudo, quando não se percebe o que está por detrás desses números. E quanto mais Maria de Lurdes Rodrigues brande desajeitadamente as estatísticas, mais expõe a sua ignorância e se põe a ridículo aos olhos dos professores. E muito mal vai uma organização quando os subordinados não reconhecem a competência do chefe.