Mário Lopes
(http://www.tintafresca.net/)
De pequenino se torce o pepino?
As virtudes da palmada, “na idade certa”, reúne, em Portugal, a quase unanimidade de opiniões favoráveis. A cultura popular não tem dúvidas quando estabelece que “é de pequenino que se torce o pepino”. Na verdade, quase todos os portugueses foram educados na virtude da palmada. Aqueles que ainda viveram na ditadura, conheceram bem as virtudes da palmatória na escola, por cada erro de Português ou de Contas. Em casa, as virtudes do poder paternal iam da correctiva palmada à punitiva sova de cinto. Afinal, lá diz o ditado que “quem dá o pão, dá a educação”, entendida esta como sinónimo de bordoada.
A cultura da palmada não se elimina por decreto nem sequer com revoluções. Ainda há não muito tempo, um juiz de um tribunal absolvia uma funcionária de uma instituição para deficientes por “educar” os jovens utentes a seu cargo à bofetada. “Nada que um bom pai de família não faça aos seus filhos”, citava a imprensa do acórdão judicial. A convicção de que se os pais não malharem nos filhos estes vão ser uns estroinas sem emenda está pois, ainda enraizada no imaginário popular. E nem os juizes, supostamente dotados de formação superior, escapam à crença, há muito desmentida por todos os estudos científicos sobre o assunto.
Nas escolas, o panorama não é melhor, apesar de há alguns anos ser estritamente proibido os professores baterem nos alunos. Em primeiro lugar, o facto de ser proibido não impediu os “correctivos” de continuarem a acontecer, contando com a condescendência de pais, professores e até dos próprios alunos, convencidos que só “levaram” para o seu bem. Em abono da verdade se diga que estas práticas vão, cada vez mais, rareando. Não tanto porque os adeptos do “estalo bem dado” tenham diminuído de forma significativa entre a classe docente, mas porque essa prática corre o risco de acabar em processo disciplinar para o professor. É caso para dizer que o estalo, hoje, não compensa.
Quase 30 anos depois da instauração do regime democrático, ainda ouvi relatos de jovens que me contaram que era prática a sua professora primária usar a régua e o estalo como práticas “pedagógicas”. Quem tem mais de 40 anos recorda-se ainda, que no tempo da ditadura, era frequente os pais pedirem aos professores para lhes “cascarem bem”. Aliás, ainda hoje continua a haver pais que pedem aos professores para baterem nos filhos se eles se “portarem mal”. Afinal, era assim no seu tempo e “não havia a pouca vergonha que há agora.” A única diferença de há 40 anos é que o pedido deixou de ser frequente. Na era da Globalização, era inevitável que a sociedade portuguesa começasse a mudar. Infelizmente, mudou ainda pouco.
Educar exige paciência, confiança e respeito. Três conceitos difíceis de ser conjugados, sobretudo, quando a experiência pessoal passou pela sua negação.
Ter paciência quando se trabalha muitas horas por dia, muitas vezes sem a devida compensação e reconhecimento e se gasta mais de um par de horas nos transportes públicos ou em filas de trânsito, chegando em casa cansado e enervado, não é fácil. Não se dá qualidade de vida aos filhos sem se apostar na qualidade de vida dos pais. Uma casa perto do emprego (ou vice-versa) e um emprego com garantia de reconhecimento e respeito representam uma boa ajuda para que os pais possam ter mais paciência com os filhos. É o que diz a teoria.
Por outro lado, uma criança ou um adolescente têm, naturalmente, uma visão limitada do mundo e agem de acordo com o entendimento que têm desse mundo. O erro mais comum dos adultos é querer julgar as crianças pelos padrões do mundo adulto. Deitar ao chão uma garrafa e manchar irremediavelmente um tapete, rasgar um livro de estimação e riscar a parede da sala são comportamentos perfeitamente admissíveis para um bebé de um ou dois anos. O erro não é da criança, mas do adulto que não tomou as devidas precauções de afastar os objectos ou não exerceu o dever de vigilância sobre a criança. Responsabilizar a criança por acções pelas quais não tem maturidade é uma tolice. Descarregar a frustração, à palmada, sobre uma criança, que deveria ser respeitada na sua integridade física, é uma cobardia.
Contudo, a falta de maturidade nalguns aspectos não significa que a criança seja imbecil e deva ser tratada como tal. A generalidade das crianças é inteligente e entende o que está ao alcance da sua faixa etária. Aqui entra o segundo erro dos adultos: o não confiarem nas capacidades das crianças e adolescentes para desempenharem determinadas tarefas. A partir dos três anos, por exemplo, uma criança já pode arrumar os seus brinquedos e deve ser estimulada a fazê-lo.
O que não deve acontecer é os pais continuarem a tratar as crianças mais velhas como se fossem bebés, não as responsabilizando por nada. À medida que vão crescendo devem ocupar-se de pequenas tarefas pedagógicas em casa, além das tarefas escolares, de forma a perceberem que a vida não é um cardápio de direitos, mas um conjunto de deveres e direitos, em que os primeiros precedem os segundos.
Por isso, a generosidade das chamadas “semanadas”, atribuídas aos adolescentes e, por vezes, aos pré-adolescentes deve depender do cumprimento prévio das suas obrigações. Fazer crer às crianças ou adolescentes de que as coisas na vida se conseguem ser esforço ou pela simples reivindicação é um erro que depois se repercutirá negativamente na vida adulta. Da mesma forma, a prestação voluntária de contas pelo trabalho escolar realizado deve ser incutida desde cedo às crianças.
Os pais devem confiar na capacidade dos filhos para desempenhar pequenas tarefas compatíveis com a sua idade. Depois de uma boa conversa, é só atribuir-lhes essas tarefas, de preferência com o seu acordo. Afinal, a vida é uma contratualização permanente e essa negociação deve ser treinada desde tenra idade. Se dermos um brinquedo ao bebé na hora da muda da fralda, ele fica quieto e permite que a fralda seja trocada sem choro. Isso já é contratualização.
Ainda relativamente à escola, importa não esquecer o papel motivador dos pais nas aprendizagens. Se os pais não se interessam pelo que a criança ou adolescente aprendem na escola, que direito têm depois de lhe cobrar resultados? Por outro lado, importa não esquecer que resultados escolares nem sempre são sinónimo de aprendizagens efectivas, que só o estudo regular garante. A maternidade ou paternidade é uma tarefa diária e permanente, não um passatempo para as horas vagas.
Por fim, the last but not the least, o respeito. Se crescemos numa cultura familiar onde a lei do mais forte imperou, é natural que a mesma lei continue a ser aplicada com a geração seguinte, a não ser que outra cultura tenha sido absorvida entretanto. “O inferno são os outros”, já dizia Jean-Paul Sartre. Convém notar que o respeito de que falo não é necessariamente coincidente com a noção de respeito da cultura popular. Há pais perfeitamente integrados profissional e socialmente que diariamente não primam pelo respeito aos filhos, a começar pelo tempo que diariamente (não) lhes dedicam.
Os mesmos pais que se apressam a proporcionar aos filhos consolas ou telemóveis topo de gama são os mesmos que mal os vêem à noite e não têm tempo para ir à escola falar com o director de turma. Infelizmente, este tipo de comportamento não merece nenhum tipo de censura social por parte da comunidade. Pelo contrário, lamentavelmente, ainda são vistos como pais-modelo que se sacrificam pelo bem-estar dos filhos...
Muitos destes pais são também os que não estabelecem regras nem limites em casa, algo incompreensivelmente aceite pela sociedade. Estes pais, que deveriam ser considerados maltratantes, pelo contrário, são vistos como liberais e “modernos”. Não haver horas para almoçar nem jantar, com cada elemento da família a comer a comida que lhe apetece, à hora e local que calha, causa danos irremediáveis a crianças e adolescentes. Os limites dão segurança aos jovens e a ausência de referências seguras deixa-os perdidos e, por vezes, a caminho da delinquência.
De igual modo, a ausência de critérios em casa abre caminho a decisões contraditórias sobre o mesmo assunto e estimula os jovens à manipulação e à chantagem. Hoje o Alberto pode ir brincar para casa do vizinho, amanhã o irmão Pedro já não pode. Esta semana leva 20 euros de “semanada”, na próxima leva só 10. Em casa, ninguém percebeu porque foi tomada uma decisão ou outra, ao adulto apenas lhe “deu na telha” decidir assim. Noutra ocasião, o filho quer ir brincar para a rua e o pai não deixa. Depois de muito berrar, o pai cede, já com os ouvidos cheios de tanta gritaria, dando o dito por não dito e pondo em causa a sua própria autoridade. O resultado é que a criança passa a adoptar o choro e a gritaria como arma eficaz de convencimento dos pais. A cena pode ser vista num qualquer supermercado perto de si.
Mais uma vez se comprova que a falta de critérios e limites contribui para produzir crianças e adolescentes perturbados. Se os adultos precisam de saber as regras de convivência em sociedade para viverem em paz, crianças e adolescentes necessitam ainda mais de conhecer as regras vigentes em casa. O resultado deste caos familiar só pode servir para produzir filhos agressivos, simulados e mal-educados. Contudo, será que estes pais “modernos” deveriam ter dado a estes filhos a tal “palmada no tempo certo"?.
A resposta só pode ser negativa. A autoridade não se impõe à palmada, pelo contrário, se um pai é obrigado a usar a violência sobre os filhos para os educar, significa que falhou redondamente na sua educação. Não teve paciência, não confiou e/ou não respeitou os filhos. Resta a pancada, em desespero de causa, provocando ainda mais perturbação e sofrimento nos filhos. Não devemos confundir firmeza com violência, não só são conceitos diferentes como antagónicos. O primeiro visa condicionar o comportamento pela razão, o segundo pelo medo.
A firmeza deve ser exercida pelos pais desde a mais tenra idade, a violência deve ser banida (já o é na lei) do seio familiar, sendo uma prova de incompetência parental. Alguns pais admitem que já não sabem o que fazer com os filhos para os controlar. Ora, um pai tem muitos instrumentos para condicionar o comportamento dos filhos, da “semanada”, às autorizações para sair de casa, ver TV, etc, etc.. E essa autoridade deve ser levada a sério desde muito cedo. Se um pai vacila, se diz uma coisa hoje e o contrário amanhã, se cede à primeira insistência dos filhos, perde toda a autoridade e o controlo da vida familiar. As prendas generosas dadas aos filhos, tentando assim aliviar o sentimento de culpa pela ausência parental, são apenas um sinal de fraqueza e de incompetência. E os filhos não deixam de perceber isso.
Ser pai não é fácil, reconheçamos. Por isso mesmo, defendo que os pais deveriam frequentar cursos de habilitação parental em três momentos da vida dos filhos: antes destes nascerem, antes de ingressarem no ensino básico e andes de atingirem a adolescência. Se todos precisamos de Carta de Condução para dirigir um automóvel, porque não deveremos estar habilitados para dirigir o destino de uma criança? Por outro lado, se a transmissão de conhecimentos de pais para filhos é útil, muitas vezes contribui também para a manutenção de noções erradas e nocivas para o desenvolvimento harmonioso da criança.
São inúmeros os riscos que as crianças indefesas correm, desde a sua concepção. Muitas começam ser maltratadas ainda dentro do ventre materno pelo fumo do tabaco das mães fumadoras. Outras vezes, ingerem passivamente o fumo do tabaco, em boa hora banido, desde 1 de Janeiro, dos locais públicos fechados. Depois, são as suas manifestações de vontade desrespeitadas, com o seu choro a ser levianamente confundido com birras e manhas. Registe-se as ausências dos pais e a permanência cada vez mais longa das crianças em infantários e escolas massificadoras. E o que dizer das crianças institucionalizadas e das crianças com famílias desestruturadas? Há um longo caminho ainda a percorrer para que as crianças tenham o estatuto que verdadeiramente merecem.